sexta-feira, 21 de julho de 2017

O uso do óleo de caju na hanseníase

Hanseníase ou lepra é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae ou bacilo de Hansen, que se inicia, após uma incubação muito lenta, por pequenas manchas despigmentadas onde a pele é insensível e não transpira, e evolui para a forma tuberculosa (a mais comum), lepromatosa ou ainda intermediária; lepra.
Desde 1943 médicos cearenses começaram a experimentar o óleo de caju na Colônia de Maracanaú, Colônia Antônio Justa. A entrevistado Dr. Joaquim J
uarez Furtado.
- Quais as propriedades farmacêuticas do óleo de cajú?
- As experiências feitas em humanos revelaram que o óleo é um tônico que melhora o estado geral sem nenhuma inconveniência de intolerância. É eficaz em corrigir as metaplasias, principalmente as causas pelo basilos de Hansen nos fenômenos de oxidação e redução que se processam, normalmente, no sangue do homem.
- Antes de fazer, com o óleo de caju, as preparações que o Dr, Manoel Odorico de Morais, já fazia na Colônia Antônio Justa o senhor já conhecia os efeitos do óleo de caju?
- Sim devido aos índices físicos e nos ditos químicos revelados pela análises que efetuamos em amostras de óleo que nos forneceu o Sr Carlos Moreira. As prorpiedads químicas devem-se as condições em que se encontram, na molécula, dispostos os átomos que muitos chamamos de grupamentos funcionais por isto não são, de efeitp, pois são de propriedades químicas comuns a uma dada família de compostos.
Quando o poder oxidante ou o dito redutor de um dado composto é muito enérgico o corpo poderá, se introduzido num organismo vivo, perturbar o biofísico desse organismo. Se assim, o corpo deverá ser reputado, por isso tóxico. A toxidez, as propriedades farmacêuticas ou alimentícias de uma substância, depende da maneira como a substância age no organismo. A atuação dessa substância dentro do organismo será fatalmente, função de estrutura química da substância em referência. Depois da análise do óleo de caju, examinamos os índices físicos e químicos; pois eles são indicadores da estrutura dos componentes do óleo; o óleo de caju não é tóxico porque nele não se encontra nenhum grupamento toxico.  Após a conclusão inicial, fizemos as seguintes ponderações: o óleo de caju assemelha-se aos óleos animai porque no insaponificável dele, se acham os esteróis que tem extrema, nímia parecença com os do insaponificável dos óleos dos animais, por isso que o índice de Bolton Williams (índice de iodo e o insaponificável) indica a presença dos mesmos radicais encontrados no insaponificável dos óleos animais.
Apesar de negativas a reação de Carr Price, resolvemos fazer experimentações fisiológicas em animais e estas revelaram primeiro ( em coelhos e cobaias), que o óleo é inocente e, sobre ser inocente, é tônico; segundo ( em ratos) que o óleo corrige as metaplasias que ocorrem nos ratos ( especialmente as que se processam nos olhos). Observamos, que depois de injetarmos seis centímetros cúbicos do óleo em questão, em ratos com menos de cinquenta gramas e com vinte e poucos dias de nascidos, todos os sintomas de avitaminose A por nós provocada e traduzida nos olhos, por Keratomalacia e fotofobia desapareceram. Bem ponderado, o bacilo de Hansen produz, por seu alto poder oxidante, destruição parcial das vitaminas e, por último, da vitamina A tanto assim, que as metaplasias que se observam nos organismos dos leprosos se assemelham às ditas devidas à avitaminose A. Feitas estas ponderações, passamos a estudar o assunto com toda atenção. Depois de fazer uma preparação capaz de ser injetada, solicitamos o auxílio do preparador técnico do laboratório Eduardo Bezerra.
O Dr Odorico aceitou experimentar o nosso preparado em leprosos da colônia Antônio Justa. Um dos pacientes escolhido para experimentar o preparado foi uma mulher, forma lepromatosa avançada encontrava-se com intensa fotofobia, processo de keratite e dito de irite; outro homem, forma mista, portador de nevrite intensa e com as matrizes das unhas quase que inteiramente destruídas. Depois do uso de óleo de caju a fotofobia da mulher melhorou a ponto de permitir a saída doente do seu quarto o que havia muito tempo não acontecia; a irite estava também muito melhorada. No homem verificou, após tratamento a reconstituição lenta mas segura da matriz das unhas.

Bibliografia: Revista brasileira de Farmácia – fevereiro de 1945.

Para saber mais: http://www.cnpa.embrapa.br/produtos/algodao/publicacoes/trabalhos_cba4/065.pdf

domingo, 16 de julho de 2017

Início da Farmacognosia Brasileira

Farmacognosia foi um termo criado por Seydler em 1815, para designar uma nova ciência e sistematizar melhor o estudo dos medicamentos. Para expressar melhor sua nova forma de trabalho o autor publicou em 1832 um livro intitulado “Grundriss der Pharmakognisie de Pflanzenreich”. A palavra grega Pharmakon, significa substância medicinal, planta curativa ou veneno e Gnosis, conhecimento, assim esta palavra passou a ser usado por Guibourt, professor da Faculdade de farmácia de Paris para designar uma disciplina do curso de Farmácia, que deveria estudar os remédios a partir das drogas simples.

Antes dele no entanto, o químico alemão Theodoro Martius, já havia usado a mesma palavra para designar o estudo do princípios ativos das plantas que resultavam em remédio. Isto acontecia na Europa do começo do século XIX onde o desenvolvimento dos remédios e dos estudos de farmácia progredia vertiginosamente entre a Franca e a Alemanha.
A farmácia na Europa deste começo do século XIX era uma ciência natural que tratava do conhecimento, preparação, valorização, estabelecia preço de mercado, e conservação do medicamento.
Nestes primeiros anos desta nova ciência, farmacognosia, buscava-se estudar substâncias medicinais que provinham da natureza sem necessariamente estar relacionada exclusivamente ao reino vegetal. Assim, rapidamente se isolaram conjunto de fármacos minerais, depois animal. Entretanto, apareceram novas substâncias medicinais de origem biológica, assim como a síntese química, a copia sintética da natureza, e rapidamente se desenvolveram novas disciplinas e com isso a palavra e o ensino de farmacognosia se restringiu ao estudo de todos os medicamentos simples que normalmente se originavam das plantas medicinais.
Identificação botânica macroscópica da planta e separação dos princípios ativos conhecidos era o principal trabalho dos farmacêuticos europeus do século XIX.
No brasill deste mesmo período os estudantes de farmácia eram poucos, 7 a cada 10 anos, e os laboratórios de química só foram instalados nas faculdades de medicina, Bahia e Rio de Janeiro, na segunda metade do século. Com isso deixamos claro que a farmacognosia é um estudo que só passou  ser ensinada nas faculdades brasileiras, depois de muita discussão acadêmica, no inicio do século XX. Isto no entanto, não deve significar que os estudos farmacognosticos de nossa flora não começaram no século XIX.
No brasil deste mesmo período os estudantes de farmácia eram poucos, 7 a cada 10 anos, e os laboratórios de química só foram instalados nas faculdades de medicina, Bahia e Rio de Janeiro, na segunda metade do século, Com isso deixamos claro que a farmacognosia é um estudo que só passou a ser ensinada nas faculdades brasileiras, depois de muita discussão acadêmica, no inicio do século XX. Isto, no entanto, não deve significar que os estudos farmacognosticos da nossa flora não começaram no século XIX.
A Europa produzia cientistas demais para sua já muito pesquisada fauna e flora. O Novo Mundo, principalmente países de clima e florestas tropicais desafiavam os jovens cientistas do velho mundo. Por pouco tempo, alguns anos, ou para o resto de seus dias os jovens cientistas do começo do século XIX sabiam que do outro lado do Atlântico ls vieram para ficar e, entre os ficaram lhes aguardava o sucesso e as novas descobertas. Muitos vieram e voltaram para Europa, outros ficaram entre os que ficaram o mais brilhante dos primeiros farmacêuticos que se radicaram no Brasil., Theodoro Peckolt (1822 – 1912).
Peckolt desembarcou no Rio de Janeiro em novembro de 1847. Em 1848 começou a conhecer o interior do pais. Montado em um cavalo começou pelo Rio de Janeiro, Espirito Santo e Minas Gerais. Neste jovem Brasil haviam poucos médicos no interior e os conhecimentos farmacêuticos do jovem naturalista colocavam-no na posição de prestar serviços médicos aos doentes que o consultavam. Destes serviços recebia interessante presente para a sua coleção botânica. Cantagalo na Serra dos Órgãos, Rio de Janeiro. A cidade naqueles tempos tinha ricas plantações de café e belas matas intactas para suas pesquisas.
Pesquisou durante 10 anos para apresentar sua primeira obra na Exposição Nacional em 1861. “Catálogo Explicativo da Coleção da Pharmacognosia e Química Orgânica Enviada a Exposição Nacional de 1861” são os primeiros resultados de suas pesquisas que vem a público. Escreve o autor: “Tudo que minha coleção tem é feito por mim e não há nenhum produto estranho”.
As diversas análises executadas por mim acham-se publicadas, em parte, no Archivo de Pharmácia da Alemanha do Norte. Reparti a minha coleção em séries seguindo, mais ou menos o sistema Pharmacognostico.
A escolha da organização dos seus estudos o acompanha pelos seus 65 anos de pesquisa. Ao analisarmos toda a sua obra observamos que a qualidade e quantidade das informações das espécies colhida neste primeiro momento o acompanham durante toda a sua existência. Sua principal preocupação será, sempre, ensinar ao povo brasileiro a importância de sua fauna e flora, absolutamente desconhecida e desprestigiada na época.
Bibliografia: Peckolt, Theodoro e Gustavo - Historia das Plantas Medicinais e Úteis do Brasil – (1888 a !914).

Para saber mais: Santos , Nadja Paraense - http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702005000200018

domingo, 9 de julho de 2017

Freire de Aguiar passa a produzir criolina

Em 17 de outubro de 1903, com grande alarde social, freire Aguiar, inaugurou na Rua Senador Euzébio a sua fábrica de produtos extraídos de hulha, um dos quatro tipos de carvão mineral.
Nesta ocasião o Dr. Luis Felipe não deixou por menos e realizou a vista dos presentes uma experiência interessante: Em um tubo de vidro, de 15 litros, colocou algumas larvas de mosquitos, derramou algumas gotas do produto de sua fabricação o phenogeno. Imediatamente as larvas morreram, ficando provado a grande importância do produto na desinfecção de água estagnada e depósitos de água, onde se desenvolvem as larvas dos mosquitos, que transmitem doenças como a febre amarela.
Hulha, minério de ferro
Os desinfetantes obtidos da destilação de hulha, muito auxiliaram no combate a várias epidemias principalmente a do Maranhão, em que o Phenogeno, cujo preço era inferior ao fenol, auxiliou a debelar o surto de peste bubônica.
Freire de Aguiar inventou e patenteou um aparelho a que denominou de “Simplex”, para ser adaptado as caixas de descarga dos vasos sanitários, lançando em cada descarga a dose exata de desifetentes. Também planejou e executou dispositivos para a desinfecção de banheiros públicos e carroça de lixo. Nem com todos estes benefícios sociais viabilizados pelos seus produtos, deixou o Dr. Luis Felipe de ter mais uma questão judicial, e desta vez com o inglês, Ed William Person com relação a marca de Creolina, pois o autor da “Creolina Pearson”, entendia que nenhum outro fabricante poderia usar o referido nome que o industrial britânico havia patenteado.
Freire de Aguiar teve de provar que o nome “Creolina” era genérico, encontrando-se em diferentes formulários e o supremo tribunal brasileiro, determinou que a Creolina brasileira poderia se chamar “Creolina Freire de Aguiar”, ficando proibido aos demais fabricantes nacionais o uso deste nome.
Freire de Aguiar foi um brasileiro dedica e empenhado durante toda a sua vida a tornar útil varias substâncias da flora brasileira, inclusive classificando vegetais.
Em 1888 o Barão de Ibituruna, agradeceu publicamente os relevantes serviços prestados por Freire de Aguiar a Inspetoria Geral de Higiene, pelas análises e correspondente parecer técnico, sobre os vinhos portugueses com vestígios de ácido salicílico. Estas análises foram feitas no laboratório da Faculdade de Medicina na presença de professores e alunos.
A primeira Magnésia fluida fabricada no brasil foi de autoria de Freire de Aguiar, ao tempo em que sua única existente no mercado era a francesa.

Suas incansáveis campanhas contra produtos estrangeiros, provocou severa fiscalização das autoridades sanitárias, e isso fez com que muitas destas fábricas se instalassem no Brasil. Entre estas a fabricante da Magnésia Fluida de Murray.
A indústria farmacêutica de Freire de Aguiar foi uma das primeiras a se interessar em fabricar extratos fluidos, principalmente de plantas nacionais, sendo que usava com êxito comprovado suas especialidades, que se constituíam de remédio feito com plantas da nossa flora.
Após persistente trabalho de pesquisa e com muitas experiências, conseguiu obter um processo econômico para a refinação do sal, e montou em Minas Gerais.
Em 1918, faleceu na cidade do Rio de Janeiro, Dona Rita de Cássia Godoi, mulher de Freire de Aguiar. Dois anos depois, como filho, Abelardo Freire de Aguiar, farmacêutico, assumiu suas funções frente a frente da indústria. Freire de Aguiar comprou uma farmácia em Barbacena e se mudou para a cidade mineira. Em Minas Gerais, exerceu suas funções de farmacêutico até morrer.

Bibliografia: Revista Brasileira de Farmácia – 1944/45


domingo, 2 de julho de 2017

A luta de Freire de Aguiar contar remédios falsificados no século XIX

Freire de Aguiar, primeiro fabricante de medicamentos no Brasil, venceu todas as batalhas pela sua fabricação da “Água Inglesa modificada”, voltou ao Rio de Janeiro e fundou outro laboratório na Rua General Câmara, mais tarde mudou seu estabelecimento para a rua Conde de Bomfim. Neste novo estabelecimento cedeu aos insistentes convites do seu colega e amigo farmacêutico o Barreto e organizou, em 1890 a “Companhia Química Industrial da Flora Brasileira”, da qual ficou apenas com o cargo técnico.
Tabletes de opio indicado para cantores e atores...
Numa série de artigos publicados em jornais do Rio de Janeiro, moveu honesta campanha contra produtos falsificados, nacionais e estrangeiros. Tinha por hábito exibir farta documentação provando suas afirmações. Em análise realizada nos laboratórios oficiais, e pessoalmente, provava a iniquidade de vários produtos importados, entre os quais o Elixir Alimentício de Ducro, que não continha nenhuma substância alimentar. Chapoteaut, farmacêutico francês, fabricou um preparado em que deveria entrar a pepiona; pelo exame realizado por Freire de Aguiar, na presença de médicos, farmacêuticos e jornalistas, provando que o elixir, que chegavam as prateleiras nas nossas farmácias, não possuía nem sombra de carne.
Em outra ocasião em sua farmáia, uma senhora pediu um vidro de xarope de Forget, o qual foi vendido. Momentos depois, essa senhora voltou muito aflita, porque sua filha estava envenenada. Examinando o medicamento, verificou que continha alta dose de cloridrato de morfina. Não deixou de comentar o ocorrido com as autoridades da Inspetoria de Higiene e tão pouco voltou a comprar o dito remédio importado.
Todos os seus produtos, entre os quais a “Àgua Inglesa modificada”, Xarope de Rabana iodado, Elixir Alimentício, Magnásia fluida, entre outros, tinham ótimo conceito na classe médica e o elixir de Jurubeba, mereceu do Dr. Domingos Freire, um parecer honroso, pois conseguiu regularizar de modo científico a preparação de jurubeba que sempre tinha irregularidade no preparo..
No governo de Prudente de Morais, sendo Ministro da Fazenda, Bernardino de Campos, (1897), Freire de Aguiar, manifestou-se pedindo proteção pra indústria farmacêutica nacional, que nesta época estava longe de ter um número grande de estabelecimentos, evitando a importação de remédios, que podiam ser produzidos no pais com toda a garantia de qualidade.

Bibliografia : Revista Brasileira de Farmácia 1944/45



quinta-feira, 22 de junho de 2017

Freire de Aguiar o fabricante da Água Inglesa

O proprietário da primeira indústria farmacêutica do brasil, foi também o patrono da cadeira de nº 20 da Academia nacional de Farmácia e chamava-se Luis Felipe Freire de Aguiar.
Luis Felipe nasceu na cidade do Rio de Janeiro, a 23 de agosto, filho de Luis Francisco Freire de Aguiar e Dona Francisca de Paula Fonseca de Aguiar.


Iniciou seu curso de farmácia em 1869 na Faculdade Nacional de Medicina no Rio de Janeiro, onde logo manifestou decidida vocação e se formou em 1871.
Serviu durante o curso no Hospital da Marinha como auxiliar de laboratório, passando depois a ocupar o lugar de segundo farmacêutico. Deixou o posto em 1874, para ter a sua farmácia no antigo Largo de Santa Rita. Associou-se a Farmácia Episcopal, a mais antiga das farmácias do Rio de Janeiro, onde começou a trabalhar em prol da farmácia brasileira. Em 1877 tonou-se proprietário da Farmácia Episcopal.
Em 1876 casou-se com Dona Rita Lessa Godoi, filha do Desembargador Antônio Thomáz Godoi e neta do Barão de Diamantina. Deste casamento nasceram Tindaro Godoi Freire de Aguiar, Abelardo Freire de Aguiar, (farmacêutico), Astrogildo Freire de Aguiar e Luiza Freire de Aguiar.
Devido a vontade de se dedicar exclusivamente a manipulação de alguns preparados especiais de sua composição, que começavam a ganhar confiança, Luis Felipe Freire de Aguiar, vendeu a Farmácia Episcopal para montar um laboratório para produzir remédios e perfumaria.
Este é um tempo em que a grande maioria dos remédios consumidos pela população brasileira era importado da Europa. Também não era grande o número de profissionais que se formavam em farmácia, 20 alunos por ano era o total de formandos da Faculdade nacional de Medicina do Rio de Janeiro na última década do século passado.
O grande inimigo do aproveitamento das plantas medicinais brasileiras eram os remédios importados e o preconceito dos governantes e da população quanto a sua qualidade e a eficiência. Como ainda hoje, “o que é importado é melhor”.
No começo, o farmacêutico freire de Aguiar, teve de sustentar uma disputa judicial com uma fábrica de produtos medicinais, estrangeira, pois manipulava um produto de formula conhecida, e com o nome comercial de “Água Inglesa”. No Brasil a distribuição deste remédio era feito pela poderosa “Sociedade União dos Fabricantes Franceses”.
A Água Inglesa ou da Inglaterra, era um vinho de quina, muito usada como tônico e antiespasmódico. Até 1888 este produto no Brasil era considerado um segredo da família de André Lopes Castro, português, porém sua fórmula já fora escrita na Farmacopéia Tubalense, editada em 1760.
Freire de Aguiar estudou vários vegetais da nossa flora, e conseguiu elaborar  uma fórmula mais honesta e cientificamente perfeita e obteve a aprovação da sua Água Inglesa modificada. Para que o farmacêutico brasileiro conseguisse comercializar o seu produto precisa de uma autorização da inspetoria de Higiene, responsável pela qualidade dos medicamentos comercializados no país. Em 20 de outubro de 1888 a Inspetoria Geral de Higiene, expediu uma circular aos seus inspetores de higiene provinciais e aos droguistas declarando: “Que a Água Inglesa julgada por esta Inspetoria como a mais adequada a índole dos formulários brasileiros, é a do farmacêutico Freire de Aguiar”. Foi o que bastou para que a distribuidora francesa reagisse.
A Sociedade União de Fabricantes Franceses julgou-se prejudicada em seus interesses no Brasil, e entrou com processo judicial no foro de Ouro Preto contra Freire de Aguiar. Freire de Aguiar, sem nenhum auxilio, teve que arcar com todas as despesas dos processos, conseguindo triunfar, sempre até em última instância. Teve muito dissabores, por não querer ceder um só milímetro de seu direito, tal era a convicção que tinha do serviço que prestava a sua profissão.
Depois de vencer todas as batalhas pela sua “Água Inglesa modificada”, voltou ao Rio de Janeiro e fundou outro laboratório na rua General Câmara, mais tarde mudou seu estabelecimento para a rua Conde de Bomfim. Neste novo estabelecimento cedeu ao insistente convite do seu colega e amigo farmacêutico Paulo Barreto e organizou, em 1890 a “Companhia Química Industrial da Flora Brasileira”, da qual ficou apenas com o cargo técnico.
Em pouco tempo, dois anos, Freire de Aguiar viu o seu bem montado estabelecimento pedir falência. Nesta época sua indústria já tinha cem produtos, sendo muitos da flora nacional e outros de matéria prima estrangeira.

Bibliografia : Revista Brasileira de Farmácia 1944/45


quinta-feira, 15 de junho de 2017

Os pioneiros no Extrato Fluido no Brasil

O Brasil desde o regime colonial adotava a farmacopeia Lusitana, e o Codex Francês passou a ser oficialmente admitido pelo decreto nº 8387 de 19 de janeiro de 1882. Assim, os brasileiros não podiam “oficialmente”, usar os extratos fluidos americanos. Só no período republicano, após 1889, começaram a fabricar no Brasil a fórmula americana. O Formulário do Dr. Chernoviz, o mais popular dos formulários farmacêuticos do século passado, trazia apenas duas fórmulas de extrato fluido de Hydrastis canadenses e Noz de Kola, formula transcrita da Deusse, única fabricante de extrato fluido na Europa.
Laboratório  da Casa Silva Araujo
Quem primeiro fabricou industrialmente no Brasil o extrato fluido foi o farmacêutico João Luiz Alves, estabelecido no Rio de Janeiro. Entretanto, quem primeiro escreveu uma monografia sobre o assunto foi o farmacêutico Francisco Giffoni, por ocasião da sua candidatura a membro titular da Academia Nacional de medicina, em 25 de maio de 1899.
As casas Giffoni, Silva Araújo e Granado tornaram-se grandes produtoras desta fórmula americana. Os catálogos da Casa Silva Araújo e Granado traziam 500 variedades, transformando praticamente todas as nossas plantas medicinais de uso corrente nos respectivos extratos fluidos. Os catálogos, desta casa também traziam à descrição das plantas, suas indicações terapêuticas, a posologia de cada extrato, e o modo de preparar cada uma das plantas. Sendo que na Farmacopeia de Rodolpho Albino consta o texto de preparação de 138 fórmulas destes extratos.

Bibliografia: Esboço Histórico dos Extratos – Professor Heitor Luz – revista Brasileira de Farmácia – 1941.
Extrato Fluido – Extensão de uso – Farmacêutico Raul Coimbra – Revista Brasileira de Farmácia – 1941

A Forma do Extrato Fluido – Professor Virgilio Lucas – revista Brasileira de Farmácia -1942

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Extrato fluido, da Teoria a Prática.

Em 1790, Fourcroy definiu os extratos como: “O extrato dos vegetais, não é como se crê um sabão, um composto de óleo de potassa, eu descobri propriedades novas. Esta matéria, que se dissolve na água, separa-se por exposição ao ar, absorvendo oxigênio, se tornando solúvel”. Essa afirmação provocou debates acalorados entre Vauquelin e Fourcroy, de uma parte de Deschamp, farmacêutico de Lyon, de outra. A luz começou a se fazer sobre a natureza complexa dos extratos. Fourcroy, após numerosos ensaios de laboratório com o extrato de quina, chamado simples, afirma que: “Por meio de álcool quente, o extrato de quina resulta em cinco corpos diferentes”.

Vauquelin aborda a questão e publica: “Sobre o princípio extrativo dos vegetais”.
Esta questão sobre os extratos entre Fourcroy e Vauquelin contra Deschamp impressionou o meio cientifico do final do século XVIII, porque era o atrito da velha química em guerra contra a nova química.
Parmentier, no curso desta discussão, faz experiências e descobre, em conjunto com Deyeux e Vauquelin,o que contem o suco dos vegetais: mucilagem, mucilagem ácida, açucarada, açúcar, resina, o extrativo, princípios corantes, princípios odorante para cada planta, tanino, fécula amilácea, glúten, enxofre, ácidos vegetais, por fim Parmentier escreveu e publicou 16 regras gerais para preparação do extrato, no seu “Codex farmacêutico para uso dos hospitais civis” em Paris 1811.
Em 1819 apareceu na Inglaterra um autor chamado Henry que escreveu uma memória sobre um novo aparelho para evaporar os sucos e outros líquidos por meio de vapor d’água. Depois veio o aparelho de Peletier, para evaporação por meio de vapor d’água sob compressão.
A Casa Dausse, de Paris começou a preparar extratos pelo processo do vácuo, com aparelhos modernizados e de rendimento satisfatório.
Os norte americanos inventaram os Extratos Fluidos e inscreveram as formulas que organizaram em sua Farmacopéia, em 1850, e o primeiro extrato fluido preparado por eles foi o de Salsaparilha.
Os farmacêuticos norte americanos, verificando os grandes inconvenientes que apresentavam os extratos moles e firmes, em consequência dos processos de preparação, idealizou essa nova forma que na prática farmacêutica é de grande vantagem.
Os extratos moles apresentam sérios inconvenientes de ordem técnica e prática. Os processos de preparação, exigindo a ação prolongada do calor, resultam produtos alterados na sua composição química pela formação de novos compostos, as vezes inertes, além de modificações em seus caracteres físicos.
Na prática, a maior dificuldade no seu emprego devia-se ao fato de ser pesado e não medido como o extrato fluido, os extratos moles são também de pronta alteração logo ao primeiro contato com o ar, o que resultava na prática farmacêutica, no uso de produtos contaminados, ressecados, e principalmente modificados na percentagem de seus princípios ativos.
O extrato fluido obtido por uma técnica especial, em que 80% da preparação deixamos de sofrer a ação nociva do calor, devendo assim, conter quase que integralmente os princípios ativos úteis da planta de onde provem, representando o próprio peso da planta dessecada ao ar, é de conservação indefinida, de fácil manejo na prática porque é empregado em volume e não em peso; substituindo a própria planta em todas as suas aplicações. Por isso sua propagação pelo país foi rápida, bem como em toda a América, enquanto que no Velho Mundo, Europa, o extrato fluido foi recebido com restrição e até mesmo hostilidade. Afinal, a vanguarda da produção farmacêutica do século passado era dividida entre Alemanha, França, Inglaterra e Itália.

(Continua)