sábado, 3 de dezembro de 2016

O lixo virou medicamento

Apenas seis meses depois do anuncio da antifebrina, outro febrífugo apareceu, dessa vez não por acaso, mas economicamente planejado.
A coisa começou certa manhã em que Carl Duisberg pôs- se a trabalhar num desagradável problema de acumulo de lixo. Num dos pátios de usina de Freiedrich Bayer, onde Duisberg era diretor de pesquisa, formara-se uma montanha de pó amarelo, ai dumas cinquenta toneladas.

- temos que fazer qualquer coisa disto, falou Duisberg ao seu assistente. Está nos tomando muito espaço aqui.
- Que é?
- Para-amimo-fenol cru – um desses subprodutos inúteis que viram problemas em todas as fábricas. Qual a sua ideia
O assistente fez um gesto de cabeça revelador de esperança.
- Lá na minha mesa tenho a formula deste subproduto- vamos vê-la. E lá: Aqui está ela. E aqui está a formula da antifebrina, daquele gajo de Strasburgo. Vê como são semelhantes.
 -Muito bem. Minha ideia é que se acetilarmos esta amina aqui e depois bloquearmos este fenol com um metílico ou algo do grupo etílico, podemos chegar a alguma coisa pratica.
Como mágicos a planejarem um novo meio de extrair uma lebre do fundo dum chapéu, os dois químicos calmamente traçaram no papel a transformação dum subproduto residual em uma poderosa droga antifebril.
Trabalho extremamente simples. As sugestões de Duisberg foram executadas em pequena escala e deram um produto que a primeira vista recebeu a classificação de etoxil-acetanilioda, nome que mostrava suas relações com a antifebrina de Cahn e Hepp – e aquilo foi mandado ao hospital de Freiburg para prova nos doentes.
Feitas as provas, aquele montão de resíduos se reduziu todo a fenacetina – um excelente e baratissimo febrífugo.
Quando chamaram a Carl Duisberg e o elogiaram pela ideia, aquele quimicozinho retaco e de reduzida estatura refugou os aplausos. “Não, disse ele, “o Caso foi muito simples. Não podíamos continuar com tamanha montanha no pátio e o remédio era removê-la ou transforma-la em algo que pudéssemos vender”...
Essa expressão “transforma-la em algo que pudéssemos vender” tornou-se a ideia mestra da filosofia industrial alemã.
A Alemanha havia dado ao mundo quatro grandes drogas antifebris: acido salicílico, antipirina, antifebrina e fernacetina. Breve daria mais duas, piramidon, ou aminopirina, que não passava a antipirina melhorada, e também o cinchofen para a gota.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

sábado, 26 de novembro de 2016

O acaso da naftalina descobre a antifebrina

Em 1886, o mundo medico voltou os olhos para uma pequena clinica em Strasburgo, na Alsacia alemã, para informações sobre o aparelho digestivo e sua função. Guiados pelo Dr Adolf Kussmaul um grupo de jovens estudantes testava os efeitos de muitos elementos químicos na digestão. E operando com terrificantes bombas estomacais, eles aprenderam a inundar o estomago de seus pobres pacientes. Procuravam remédios para todas as doenças intestinais causadas por germens e parasitas.
Certo dia dois desses rapazes receberam uma ordem.

- Senhores, disse o professor Kussmaul, tenho um belo problema para ambos. Há aqui malvado vermes que penetra no intestino e fura as tripas. Talvez vocês encontrem uma droga que os mate, sem matar ou prejudicar o paciente.
Os incumbidos do problema foram Arnold Cahn e Paul Hepp, o primeiro já a especializar-se em ácidos do estomago e o segundo no ataque a triquinose. Nenhum dos dois gostou da tarefa que o mestre lhes atribuía.
- Vermes, vermes! Rosnou Cahn. Não gosto de trabalhar em vermes. Isso cabe a você, Paul, que é o perito em vermes aqui no nosso grupo.
- Sei, tornou Hepp. Você não quer, nem eu – mas o mestre mandou e temos de obedecer. O melhor é começarmos já, para acabarmos a coisa o mais depressa possível. Mas por onde começar?
- Hum... Podemos experimentar com a nossa naftalina, se é que ainda existe. Todos andam aqui a usa-la. E voltando-se para alguém: “Oh lá, Julius! Venha cá”.
Um lavador de vidros, de lerda, aproximou-se.
- Vá ao quarto das drogas e diga a Schmidtzie que precisamos dum pouco de naftalina, ai umas 50 gramas, se é que não comeram tudo.
Julius encaminhou-se sonolentamente para o deposito de drogas onde Herr Schmidt imperava, e deu o recado. Uma hora mais tarde Schmidt em pessoa vinha fazer a entrega da droga pedida.
- herr Doutor, disse ela a Cahn, não tenho  bastante naftalina no vidro grande, mas trago aqui um vidro ainda não aberto. Não sei bem se é naftalina, porque o rotulo está estragado. Parece que é.
Cahn espiou o que restava do rotulo e disse:
- Sim, é naftalina. Deixe o vidro conosco. Com certeza vamos usar tudo.
Uma semana depois os dois assistentes ainda estavam procurando matar vermes com aquela “naftalina”, e a droga não agia (eles nem haviam cheirado o vidro! A naftalina cheira como aquelas bolas de matar traças). Não matava vermes.
Por fim Paul Hepp agarrou o vidro, dizendo:
- espere um pouco. Vou ver se esta porcaria cura alguma coisa! Tenho um doente no consultório com a barriga cheia de tudo que os livros trazem. Vamos ver o que esta naftalina faz com a bicharia dele.
Tres horas mais tarde Hepp corria para a mesa de Cahn.
- Escute! Você sabia que a naftalina abate a febre?
- O diabo abate a febre tornou Cahn. Não sei quem em Berlim já fez a experiência. Não abate nada.
- Não abate? Ou esse alguém está louco ou eu – mas duvido muito que seja eu.
- Que quer dizer?
- O que estou dizendo. Sabe? Aquele meu doente com bicharia nas tripas? Pois esta manhã estava com a temperatura cinco graus acima do normal. Dei-lhe uma dose desta naftalina e meia hora depois a temperatura desceu para o normal. Quem é o louco?
- Deixe-me ver isso, disse Cahn passando a mão no frasco de naftalina; era o mesmo que Schmidt trouxera, o de rotulo estragado; Cahn cheirou-o. Espere, Paul. Isto não é naftalina! Não tem cheiro de naftalina!...
Hepp arrepiou-se.
- E não sabemos o que é. E eu podia ter matado aquele camarada lá na clinica! Escute: tenho um primo na fabrica de anilina de Biebrich. E se o mandasse fazer a analise dito? Estou tonto...
Semanas depois os dois jovens de Strasburgo mandavam um resumido artigo a um jornal de medicina de Berlim. “Por um feliz acidente”, diziam eles, “um novo composto nos veioter às mãos, o qual se revela um excelente febrífugo”. Investigado pelo Dr. E. Hepp, em Biebrich, verificou ele ser uma substancia de há muito conhecida dos químicos – a acetanilida ... a qual desejamos dar o nome de antifebrina.

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

sábado, 19 de novembro de 2016

A descoberta da antipirina abre a fábricação de medicamentos sintéticos

Em 1883 Ludwig Knorr, com 24 anos e então na Universidade de Wurzburg, estava empenhado em descobrir qual a molécula de quinina que atuava como febrífugo. Outros cientistas procuravam a mesma coisa por um método diferente; desdobrando a quinina e estudando as partes, Knorr fez o contrario – tomava elementos químicos, ligava-os e testava o produto.

Planejou no papel sintetizar alguma coisa equivalente a quinina por meio da mistura de metil-fenil-hidrazina com algum etil-aceto-acetato. O produto pratico dessa formula apareceu sob forma de cristais brancos lamelares,solúveis em água e álcool. “Bem” pensou Knor “tenho aqui o meu febrífugo sintético. E agora? Que fazer com ele?”endia de febre e febrífugos.
S, estudante na universidade de Erlangen, o qual entendia de febre e febrífugos. E escreveu-lhe: “Caro Dr. Filehne – recordo-me que anos atrás o senhor fazia experiências com febrífugos com a quinina. Saiba que sintetizei em meu laboratório um novo composto que, fora de duvida, é uma espécie de quinina. Pode ter a bondade de testar isso e beneficiar-me com a sua experiência e profundo conhecimento”?
A cinquenta milhas dali, em Erlangen, o bom Dr. Filehne, sorriu ao ler aquilo, e pôs-se a experimentar a droga de Knorr, como já havia testado tantas, todas muito promissoras, mas... “mais uma agora! Bem. Se me sobrar algumas horas na semana entrante...”
Dias depois o Dr Filehne já não sorria. Aquilo lá do jovem Knorr não era uma droga nova – era quase a própria quinina em pessoa! Não curava a malária, mas em todas as outras febres – na da pneumonia, da tuberculose, da erisipela, na tifoide e na tisica a droga de Knorr parecia miraculosa. E sem perigo nenhum...
“Meu caro amigo”, escreveu-lhe Filehne, “não sei o que o seu produto é, não conheço a formula; mas trata-se dum febrífugo dos mais notáveis que tenho visto. Se ainda não lhe deu nome, sugiro um antipirina, do grego pyretos, febre”.
O novo remédio não era tão maravilhoso como Filehne queria. Não valia a quinina já qu não curava a malária, e também não curava os casos comuns de febre. Mas era uma excelente droga, merecedora de entusiasmo provocado.
Com a lembrança ainda fresca do caso do acido salicílico no reumatismo, os médicos muito naturalmente testaram a antipirina no tratamento dessa Verificaram-lhe o efeito nas dores das juntas, nas dores de cabeça, nas dores das costas e na nevralgia.
Só depois do acumulo de toda essa massa de informação é que Knorr subitamente descobriu o seu erro. Havia empreendido produzir um derivado sintético da quinina que fosse febrífugo (e só por essa razão é que mandou a droga era efetiva nas febres e em muitas outras coisas mais – mas não era um derivado da quinina. Tinha tanto a ver com a quinina como a serragem de madeira.
A antipirina era algo novo, um produto químico absolutamente inédito.
Cuidadosas experiências de laboratório provaram que a reação teórica entre a metil-fenil-hidrazina e o etil-aceto-acetato não se confirmava na pratica. Em vez de dar o que fora previsto, dava coisa inteiramente nova.
A antipirina foi a primeira grande droga produzida sinteticamente. Sua descoberta veio marcar o inicio dum negocio novo – a grande indústria das drogas sintéticas.

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Ácido Salicílico encontra seu caminho junto às febres.

Durante os anos de 1873 e 74 o tom dos relatórios médicos sobre o acido salicílico foram de entusiasmo, mas depois do tempo da novidade as coisas começaram a arrefecer. Todos os médicos concordavam num ponto, que o acido salicílico fazia o doente sentir-se melhor; mas muitos passaram a admitir que os doentes que se curavam eram os mesmos que sarariam sem remédio nenhum. A media de mortes em tais e tais doenças permanecia inalterada. As vitimas da febre tifoide reagiam bravamente sob a ação do acido. Horas depois de ingerida a droga a febre caia e os doentes reviviam. Mas dias depois morriam. Isto acontecia com os doentes de tifo, pneumonia entre outras doenças.

Salix alba

A explicação do curioso fenômeno foi dada por um jovem medico suíço. Lá em um hospital provinciano, no cantão de Saint Gallen, Carl Emil Buss, impressionou-se com aquela historia de acido salicílico. Seus mestres lhe haviam dito que a droga agia como o acido carbólico, matando os micróbios e, pois, curando os doentes; mas as suas observações pessoais não mostravam bem isso. Então, o que realmente acontecia?
Buss procurou dar respostas as suas perguntas. Foi ao arquivo dos seus boletins e começou a consulta-los. Lá estava o caso de Pauline Strauss – febre tifoide, 14 dias no hospital, acido salicílico dado diariamente. Duas horas depois de tomado o remédio a temperatura caíra e ela se sentira aliviada – mas no 15 dia morreu. E lá estava o caso do pequeno Muehlhausen – pneumonia, febre alta; salicílico três vezes por dia; três quedas da temperatura e depois morreu. E estava lá o caso de Johann Bischoff, reumatismo nas juntas; com a dor acompanhada de febre alta. Tomou salicílico. A temperatura caiu e Bischoff deixou o hospital curado. Mas esse caso não era importante, porque reumatismo não mata ninguém.
O jovem Dr Buss coçou a cabeça, com os olhos fixos nos cartões. Aquilo era estranho e talvez não tivesse importância, mas estava lá. Se uma pessoa com febre toma acido salicílico, cai a febre! Seja lá o que aconteça, morra ou sare o doente, uma dose de salicílico é sempre seguida de queda da febre. E se a febre volta, nova dose a faz recuar. No entanto o tal ácido não era conhecido como febrífugo. O febrífugo por excelência era a quinina; e depois da quinina, banhos frios e drogas fracas e incertas como o álcool, a veratria, o acônito, a casca de salgueiro...Eureca!!!! É da casca de salgueiro que é retirada o acido salicílico. A casca de salgueiro vinha a séculos sendo usada pelos supersticiosos, remédio de gente ignorante.
Também havia acido salicílico no óleo de pirola antiquíssimo remédio para febre e reumatismo.
As temperaturas, agora. O que fazia o salicílico nesse setor? De volta á enfermaria Buss deu exclusivo tento a esse ponto. Não lhe importava que o doente morresse ou sarasse. O que queria era resposta a essa pergunta urgente: que faz o acido salicílico com a temperatura?
Depois de analisar diversos caso suas conclusões foram mandadas a um jornal medico de circulação mundial. “O acido salicílico”, anunciou Buss, “tem em minhas mãos reduzido a febre em todos os casos...Não importa a causa da febre”.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

domingo, 6 de novembro de 2016

Kolbe, o ácido salicílico e a loucura experimental.

No dia seguinte, depois de Kolbe ter prometido a Tjiersch que conhecia a formula para sintetizar o ácido salicílico extraído do ácido carbólico, foi bem cedo ao laboratório da Universidade de Leipzig, atravessou as salas, passou, sem dizer nada aos estudantes e entrou em seu gabinete . De lá, pela porta entreaberta, deu uma ordem seca.
- Otto, um pouco de acido carbólico! Frederick prepare o gerador de dióxido de carbono. E você Ludwig, traga o novo frasco de soda caustica.

Meia hora depois aquele terrível inimigo do erro, que era Kolbe, estava cometendo o maior dos erros que a historia química menciona – um abençoado erro que iria abrir todo um novo campo da terapêutica!
- Olha aqui, disse Kolbe a um de seus assistentes. Vou repetir uma pequena experiência que realizei há anos em Marburg. Otto faça o favor – a folha... Vamos produzir um pouco de acido salicílico – passe-me esse tubo, Ludwig! – e vamos matar micróbios. Estão ouvindo rapazes? Vamos curar todas as doenças do mundo. Vamos de agora em diante ser matadores de germens.
- Mas, Herr Professor, nós somos químicos, alegou um dos rapazes. Não sabemos matar germes. Como vamos começar?
Kolbe olhou-o de esguelha.
- Começar? Ach, estamos já quase no fim. Enquanto
Vocês moços dormiam, eu meditava. Enquanto vocês jogam e brincam, o professor pensa.
Os assistentes entreolharam-se e deram de ombros.
- Herr, professor, disse Ludwig, enquanto estávamos jogando e brincando, que é que o senhor pensou?
- Pensei, respondeu Kolbe, que vamos produzir algum acido salicílico e com ele matar germes.
- Mas...
- Faça o favor de não discordar. Querem saber por que o acido salicílico vai matar germens? Direi.  Porque o acido salicílico lentamente se transforma em carbólico e o acido carbólico mata germes.
- Mas então porque não usa o ácido carbólico?
Kolbe desfranziu a testa.
- Ach, que assistente tenho eu! Porque o acido carbólico é muito perigoso e o acido salicílico é perfeitamente seguro. Se você apanha o cólera, tudo o que tem a fazer é tomar uma Boa solução de acido salicílico, que é perfeitamente seguro – e estará livre dos micróbios do cólera.
Tudo isso não passa de suposições teóricas, fáceis de serem testadas, de modo que aqueles estudantes de Leipzig sem mais delongas se viram transformados em caçadores de micróbios. O primeiro passo, a produção de ácido salicílico, foi coisa fácil para tão hábeis químicos, mas aquilo em germes e micróbios isso já seria outra historia. Nenhum deles tinha a menor técnica a respeito.
E encheram o laboratório de vasilhas de carne em decomposição ou leite azedo. Desajeitadamente procuravam no microscópio os pequeninos asfixiavam-se com o cheiro de carne podre. Procuravam impedir a fermentação do chope de Leipzig e matar terríveis assassinos microscópicos em cadáveres humanos.
Kolbe não sai dali.
- Rapazes, vocês viram que este leite azeda em três dias, mas que se lhe juntarmos acido salicílico permanece fresco por uma semana. Ótimo, ótimo! Foi o acido salicílico que o preservou. Como? Transformando-se em ácido carbólico! E Kolbe ia enchendo o bolso com papei de anotações.
- Com que então, Otto, o acido salicílico impediu por um mês que esta carne apodrecesse. Ótimo, Otto! Ótimo!
- Verificou que o acido salicílico impede o vinho de azedar, Ludwig? Excelente, meu rapaz. Excelente!
E foram meses e meses daquele trabalho, daquela loucura experimental.
Kolbe e seus auxiliares faziam centenas de testes, mas com a maior imprecisão. Eram testes que se fossem feitos em outro laboratório incorreriam na severa censura de todos. Mas, ali, estavam procurando provar uma teoria...


 Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Descoberta da aspirina para cura de todos os males

- Os médicos, declarou o químico Hermann Kolbe, são todos uns trapalhões.
- Inclusive eu? Perguntou o cirurgião Karl Thiersch.
- Claro. Inclusive você, meu amigo.
- E por que, Hermann?
Kolbe fungou.
Hermann Kolbe, qumico 
- Vou dizer porque. Olhe esse louco do Pasteur, lá na França. Se um dos meus alunos não trabalhasse melhor que ele, imediatamente eu o expulsaria do laboratório!
- oh!!... E outras razões?
Kolbe fungou outra vez.
- Considere o caso do seu grande amigo Lister. Veja como manipula o acido carbólico. É por milagre de Deus que ele nãose mata a si mesmo e a todo mundo.
O Dr. Thiersch ponderou sobre o caso.
- Talvez você tenha razão, Kolbe. Pasteur e Lister erram de vez em quando. Mas fazem grandes coisas. Ambos salvaram muitas e muitas vidas.
- Ach, tolice! Como podem fazer bem, se estão continuamente, cometendo erros? Eu, por exemplo, não erro.
Nunca em minha vida errei.
- Hum! Fez Thiersch
- Sim, continuou Kolbe, tenho desprezo pelos que erram.
- Se eu o não conhecesse muito bem, Kolbe, me sentiria ofendido e virava os calcanhares – mas vim aqui a procura de conselhos sobre o acido carbólico. Conselhos ou informações químicas.
- Informações químicas? Bom. Isso é diferente. Que deseja saber? Retiro os meus insultos, disse Kolbe piscando os olhos bem humoradamente.
- O caso é sério, Hermann. Ando pensando em dar acido carbólico z alguns dos meus clientes – em caso de tifo, tuberculose e crupe, mas esse acido é muito perigoso. Haverá qualquer outro produto químico menos ofensivo e que lá dentro do corpo se transforme em acido carbólico?
-É isso? Pois veio bater na porta certa. Há o que você quer e justamente fui eu o descobridor. Chama-se ácido salicilico.
-Realmente?
- sem duvida. Vinte anos atrás eu o produzi. Descobri meio de sintetizar o acido salicílico extraindo-o do carbólico, e depois verifiquei que este acido salicílico volta a ser carbólico novamente. - É admirável! Exclamou Thiersch. Mas acha que agirá assim no organismo?
- Certamente que agirá. Que é o corpo humano senão um tubo de laboratório? Garanto que agirá. Mas amanhã meus rapazes produzirão acido salicílico e nós verificaremos o ponto – Obrigado Hermann. Mas cuidado, hein?..
- Com o que?
- Cuidado! Não vá cometer algum erro...
- Absurdo!

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Alemães queriam trocar remédio contra a doença do sono por suas colonias na África

A coisa começou como murmúrios: “Soube da história? Parece que os alemães descobriram o específico de alguma doença tropical.” O que seria? O mundo ignorava. Portas a dentro do Instituto de Medicina Tropical de Hamburgo, um pequeno exército de cientistas trabalhava furiosamente, em silencio. Cada semana um dele voava ao departamento de Saúde de Berlim, ou a grande fábrica Bayer em Elberfeld, mas não divulgava nenhuma informação. Até o ano de 1920 nada transpirou do que se passava dentro do laboratório, mas no fim desse ano um químico cochichou para um colega na Inglaterra; “Fui informado de que na Alemanha estão fazendo provas dum específico para a doença do sono”, e a novidade espalhou-se.
pacientes com doença do sono em Moçambique
Doença do sono ou tripanossomíase africana é uma doença frequentemente fatal causada pelo parasita unicelular Trypanosoma brucei. Há duas formas: uma na África Ocidental, incluindo Angola e Guiné-Bissau, causada pela subespécie T. brucei gambiense, que assume forma crônica, e outra na África Oriental, incluindo Moçambique, causada pelo T. brucei rhodesiense. Ambos os parasitas são transmitidos pela picada da mosca tsé-tsé (moscas do gênero Glossina que são seu vetor).  A infecção ataca o sistema nervoso central, causando distúrbios neurológicos graves. Sem tratamento, a doença é fatal. Hoje a doença coloca em risco 60 milhões de pessoas.
mosca tsé tsé vetor do Trypanosoma brucei
Porque isso era em 1920, tempo em que a infernal doença estava devastando as colônias inglesas da África e as tomadas aos alemães durante a guerra.
O Colonial Office foi bombardeado de intimações da Inglaterra inteira. “Nada poupem para descobrir qual a nova droga alemã. Faz-se imperativo que tenhamos a dianteira no tratamento da doença do sono.”
Os pobre cientistas ingleses não conseguiam a menor informação sobre a descoberta alemã e aconselhavam ao governo que mantivesse calma e acreditavam que quando os alemães concluíssem os estudos, anunciariam a droga e diriam do que se tratava.
Porém o calculo dos ingleses não deram certo. Ao anunciarem a droga os alemães fizeram de um modo sem precedente nos anais da história. “Nós aperfeiçoamos uma nova droga que se revelou o remédio específico para a doença do sono africana. Demos o nome de Bayer 205, ou germanina. Mas no momento não estamos preparados para apresentar a fórmula”.
- Escutem aqui! Clamavam os ingleses. Vocês não podem fazer isso! Não é assim que verdadeiros cientistas procedem...
Mas os alemães calaram-se e continuaram a testar o 205 em mais ratos, mais coelhos e mais cavalos. Quando plenamente convencidos de que o 205 era inócuo para animais, ousaram fazer experiência em criaturas humanas- e por ironia do destino este humanos eram ingleses vindos da África com a doença do sono e foram a Alemanha em busca da cura. Ao retornarem de Hamburgo para a Inglaterra, perfeitamente curados, isso ainda mais assanhou os ingleses.
Os pedidos do Bayer 205 choviam, mas a resposta dos alemães era sempre: “Podemos mandar o 205 na quantidade que quiseres, mas com a condição de dardes a palavra de honra de que não fareis nenhuma analise do medicamento, nem o dareis para que outros o façam”...
Os médicos ingleses, franceses, belgas e holandeses tiveram de aceitar as imposições germânicas.
Nu a reunião em Hamburgo um orador pôs as cartas na mesa.
“O Bayer 205 é fundamental para a África tropical e, por consequência, a chave de todas as colônias. O governo alemão deve salvaguardar essa descoberta para uso exclusivo da Alemanha. Seu valor é tal, que qualquer participação em seu uso, por parte de outras nações, tem que basear-se numa condicional: a restituição das colônias alemãs tomadas durante a guerra”.
O barulho foi grande. Os homens de governo, os cientistas e estadistas dos países visados bradavam “Traição”! Nesta época a formula do Bayer 205 valia um bilhão de dólares.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943