sábado, 20 de maio de 2017

De Boticário a Farmacêutico as muitas lutas para o surgimento da profissão

Apesar das diversas instituições de ensino da farmácia pelo país no século XX, a passagem do comércio de botica para a farmácia como hoje conhecemos , custou muita luta e muito empenho para se consolidar. Afinal o hábito, na cultura popular, dificulta em muito as mudanças, por mais necessárias que elas sejam.
Dr Pedro Chernoviz
A própria lei que regulamentava o efetivo exercício da profissão persistia em chamar os farmacêuticos de boticários. O Regimento nº 829, de 29 de setembro de 1851, documento que regulamentava a profissão, fazia menção ao técnico de preparação dos medicamentos através da palavra “boticário”, e não se pense que a expressão dissesse respeito a profissionais sem diploma, pois o artigo 28 do referido regimento é claro: “os médicos, cirurgiões, boticários, dentistas e parteiras apresentarão seus diplomas...”
O hábito continuou até surgir o decreto 2055, de dezembro de 1857, onde ficou estabelecido as condições para que os farmacêuticos, não habilitados, tivessem licença para continuar a ter suas boticas. Uma ironia bem própria da cultura brasileira onde farmacêuticos e boticários, habilitados ou não, tinham pouca diferença para a média da população bem como para os legisladores, normalmente leigos em questões técnicas de farmácia.
O boticário dará definitivamente espaço ao farmacêutico depois de 1886. Isto no entanto não deve significar que o pais e suas faculdades de farmácia não produziram cientistas de nível nacional. É o caso de Luís Antonio da Costa Matos, que obteve um princípio antifebril da amêndoa de caju; Joaquim de Almeida Pinto, pernambucano, que estudou espécies da nossa flora e organizou um dicionário de botânica; Antônio Gonçalves de Araújo Penna, paulista que se dedicou a farmácia homeopática, dando-lhe grande impulso e popularidade. Ezequiel Correia dos Santos, fluminense, dedicou-se ao estudo das plantas medicinais brasileiras, procurando isolar os princípios ativos e obtendo em 1838, a pereirinha do pau Pereira, com a colaboração dos farmacêuticos Soullié e Dourado. Joaquim Correia Mello, paulista, exerceu a profissão em Campinas, onde se popularizou pelo apelido de
“Quinzinho da botica”, sua vocação era a botânica, estudioso e modesto, aplicou-se profundamente ao estudo da nossa flora, redigindo comunicações e memórias que foram publicadas nos anais da famosa “Linnean Society”, de Londres, da qual era o único sócio correspondente sul americano. Destaque especial para a farmacêutica da Policlínica do Hospital de São João Batista em Niteroi, RJ . Sua formatura foi um verdadeiro acontecimento social, pois fugia aos hábitos dos homens na profissão a época.
Em maio de 1841 aparecia com grande êxito o “Formulário do Dr. Pedro Luís Napoleão Chernoviz” e, no ano seguinte, o Dicionário de medicina Popular e Ciências Assessórias, contendo a descrição das doenças, sintomas e tratamentos, as receitas para cada doença; as plantas medicinais, as alimentícias, as águas minerais do Brasil, Portugal e de outros países. Esta obra tornou-se popular para o efetivo exercício da farmácia durante todo o século passado, e também era aceita como, bibliografia de base para a reformulação da Farmacopeia Brasileira de Rodolpho Albino, em 1947.
Foram sucessivas seis edições do Formulário, chegando a 1908; em 2 volumes de cerca de 1500 páginas cada um.
A farmácia no Brasil teve de vencer muitos obstáculos para se firmar enquanto profissão. Não era só o número de alunos reduzido nas faculdades, mas também a concorrência profissional dos químicos , botânicos, médicos, curandeiros, benzedeiras, comerciantes de seco e molhados e principalmente da pouca ou nenhuma escolaridade da grande maioria da população por vários séculos. Aliado a isso a necessidade de desenvolvimento científico nunca fez parte da cultura nativa.
O investimento para exercer a profissão não era pouco, afinal precisava de um número bastante respeitável de medicamentos simples e compostos, para efetivamente exercer sua profissão.


Para saber mais: https://www.bbm.usp.br/node/77

sábado, 13 de maio de 2017

As boticas e o ensino de farmácia no Brasil

A cidade de São Paulo em 1765 tinha três boticários, Francisco Coelho Aires, com seu comércio e moradia na rua Direita, Sebastião Teixeira de Miranda na atual rua Alvares Penteado e José Antônio de Lacerda na Praça da Sé.
A Real botica de São Paulo estava instalada onde hoje é o Vale do Anhangabaú precisamente, onde está o antigo prédio do Correio. O prédio para instalar esta primeira botica oficial na cidade foi construído em 1796 e demolido em 1916.

No tempo da Real Botica os remédios eram, na sua grande maioria, plantas medicinais, porém desde 1730 o brasileiro usava o mercúrio e o arsênico importados da Europa.
O ópio, a escamoneia, a rosa, o sene, o manacá e a ipeca já faziam parte dos remédios necessários para funcionamentos de uma botica. Pomadas e linimento tinham grande consumo, aliás o produto mais consumido era a pomada alvíssima, além do bálsamo católico, de Copaíba e a Água Vienense, que só entrou em desuso no começo do século XX.
As boticas do Rio de Janeiro, no entanto, eram adornadas “com estilo muito mais luxuoso que o comum das casas de comércio, isto é, de muito bom gosto. Em vez de balcão, como se costumava ter, tinham bem no meio uma espécie de altar, com a frente ornamentada com pintura e dourados; o motivo mais comum na pintura era alguma paisagem, um naufrágio ou um simples ramalhete de flores. Acima, no altar, a balança, os pesos, dois ou três livros velhos, oráculos, sem dúvida, da arte de curar”.
Os utensílios de laboratório, sempre despertou no cliente um olhar respeitador bem como muita curiosidade. Talvez por suas formas singulares, tão diferente da maioria dos objetos corriqueiros, talvez por indicarem ao leigo de alguma forma, as transformações que nestes locais se faziam, Na porta dos laboratórios o aviso “Proibida a Entrada”, só entravam o boticário, vestido com sua bata branca, e os auxiliares, geralmente moços de manga de camisa. O freguês ficava a espera da receita, que levava no mínimo uma hora para ser aviada além da grade de madeira ou de ferro.
Quando a família real portuguesa ruma para a colônia Brasil, o futuro país não tinha conseguido fazer chegar as suas terras qualquer dos avanços científicos que a Alemanha, França e Itália desfrutavam.
O Brasil era colônia portuguesa esquecida pela rainha D. Maria I, “A Louca”.
Não havia faculdade, as ciências de uma maneira geral eram privilegio dos que podiam estudar em Lisboa, Paris ou Londres.
Foi depois da vinda da família real, (1803) que o país, ainda colônia, adquiriu o direito de acompanhar os movimentos culturais e científicos do velho continente em curso a mais de um século.
O primeiro passo largo rumo a modernidade foi encabeçado pelo príncipe regente D. João VI, que admirava os estudos de história natural, bem como o trabalho dos naturalistas.
Em 18 de fevereiro de 1808, instituiu os estudos médicos no Hospital Militar da Bahia, por sugestão do cirurgião-mor do reino, Dr José Correia Pincanço, futuro Barão de Goiana, com ensino de anatomia e cirurgia, porém o ensino de farmácia só iniciou em 1824.
A intenção de D. João VI era formar médicos e cirurgiões para o exército e marinha, onde estava a elite econômica da época.
No Rio de Janeiro o rei instituiu o curso de medicina em 1809. Este curso era composto das cadeiras de medicina, química, matemática médica e farmácia. O primeiro livro desta faculdade foi escrito por José Maria Bontempo, primeiro professor de farmácia do Brasil, e chamava-se “Compêndios de Matéria Médica” e foi publicado em 1814.
Em 1818 o farmacêutico português instalado no Rio de Janeiro, José Caetano de Barros abriu o ensino gratuito a médicos, boticários e estudantes no laboratório de sua farmácia, sendo que as aulas de botânica eram dadas pelo carmelita pernambucano Frei Leandro do Sacramento, diretor do Jardim Botânico, e professor dessa disciplina na então Escola Médico Cirúrgica. As aulas de Frei Sacramento eram ministradas no Passeio Público do Rio de Janeiro.
Dentre os discípulos de José Caetano de Barros, destacava-se Ezaquiel Correa dos Santos, que veio a ser um dos pioneiros da farmácia no Brasil. Seu filho também farmacêutico tornou-se catedrático de farmácia na Faculdade de medicina do Rio de Janeiro entre 1859 e 1883.
O ensino de farmácia aconteceu em 1925 quando o curso passa a ter uma faculdade de farmácia, filiada, como a de cirurgia, botânica e medicina a Universidade do Rio de Janeiro.


(continua)

domingo, 7 de maio de 2017

As primeiras boticas do Brasil Colônia eram regidas pela Farmacopeia portuguesa

Quando o colégio dos jesuítas da Bahia foi saqueado e sequestrado em julho de 1760, ordem dada pelo Marques de Pombal, o desembargador incumbido da ação judicial comunicava a seus superiores, “ que tendo ele noticias da existência na Botica do Colégio de algumas receitas particulares, entre as quais a do antidoto ou “Triaga Brazílica”, havia feito as necessárias diligências para dele se apossar”. Mas a receita não foi encontrada em lugar algum na Bahia. Somente mais tarde foi ela encontrada na Coleção de Várias receitas, “e segredos particulares das principais boticas da nossa companhia de Portugal, da Índia, de Macau e do Brasil, compostas e experimentadas pelos melhores médicos, e boticários mais célebres. Aumentada com alguns índices, e noticias curiosas e necessárias para a boa direção, e acerto contra as enfermidades”. (Roma 1766).

Outa botica que se assemelhava a dos padres, era a da Misericórdia. De caráter semipúblico, tanto servia a seu próprio hospital como a cidade. Frei Vicente de Salvador refere-se também a existência de uma grande caixa de botica que os holandeses possuíam num forte baiano, e eram vinte e duas boticas (caixas) da armada luso espanhola.
As boticas só foram autorizadas, como comércio, em 1640, a sangria, também foi legalmente autorizada naquele mesmo ano e, resultou em competição entre os barbeiros e os escravos sangradores. A partir deste ano as boticas se multiplicaram, de norte a sul, dirigidas por boticários aprovados em Coimbra pelo físico-mor, ou por seu delegado comissário na capital do Brasil, Salvador. Estes boticários, que obtinham com a máxima facilidade a sua “carta de aprovação” eram profissionais empíricos, às vezes analfabetos, lavadores de vidros ou simples ajudantes, possuindo apenas conhecimento de medicamentos corriqueiros. Por causa de toda essa “felicidade”, muitas de botica, requeriam exame perante o físico-mor ou seu delegado e, uma vez aprovados, o que geralmente acontecia, arvoravam-se em boticários, estabelecendo-se por conta própria ou associando-se a um capitalista ou comerciante, normalmente do ramo de secos e molhados, que alimentava a expectativa dos bons lucros no novo negócio. Em todas as cidades do brasil, desde os primeiros tempos da colonização, foi hábito dos comerciantes de secos e molhados, negociarem com drogas e medicamentos, não só para uso humano como para tratamento dos animais domésticos, aos cuidados do alveitares (veterinários). Raras eram as boticas legalmente estabelecidas.
O comércio das drogas e medicamentos era privativo dos boticários, segundo o que estava nas “Ordenações”, conjunto de lei usados no Brasil durante todo o período colonial, reformada por D. Manuel e em vigor desde o princípio do século XVI, bem como por leis e decretos complementares. Foi com base nesta legislação que o físico-mor do reino, por intermédio de seu comissário de São Paulo, ordenou o cumprimento integral do regimento baixado em maio de 1744. Com isto intensificou-se a fiscalização do exercício dessa profissão, pois o regimento proibia terminantemente o comércio ilegal das drogas e medicamentos, estabelecendo pesadas multas e sequestro dos respectivos estoques, Houve, busca e apreensões das mercadorias proibidas, que foram depositadas nas boticas locais. Foi um “Deus nos acuda”.
O regimento foi feito a partir de uma ordem do Conselho Ultramarino de dois anos antes. A orem fora dada ao Dr. Cypriano de Pinna Pestana, físico-mor do reino, para que não desse comissão a pessoa alguma, que no Brasil servisse por ele, esta comissão só poderia ser dada a um médico formado pela Universidade de Coimbra, e que mesmo físico-mor faça um novo regimento da forma em que os seus comissários deveriam proceder nas suas comissões e qual o salário que deveriam receber. “E que fizesse também um regimento para os Boticários do dito estado com atenção as distâncias, que ficam as terras litorâneas. Ficando advertido que tanto os ganhos dos seus comissários como os preços dos medicamentos nunca deveriam exceder o dobro, dos preços praticados no reino e que feito tal regimento deveria ser remetido ao Conselho”.
Quanto ao exame prestado pelos candidatos a boticários, bem como a inutilização das drogas eventualmente deterioradas, desde a sua chegada aos portos, e a fiscalização das boticas, tudo se faria de acordo com o regimento: legalização do profissional responsável; existência de balança; pesos e medidas; estado de conservação das drogas vegetais, principalmente as importadas; medicamentos galênicos; produtos químicos; vasilhames e ocasionalmente, a existência de alguns livros. As inspeções das boticas seriam rigorosas e realizadas a cada três anos. Este regimento foi considerado modelar para a sua época.
Em completo atraso e carência de preparo, os boticários de Portugal e das colônias portuguesas, tinham como guia a obsoleta Farmacopeia Galênica Quimica de Joan Vigier, data de 1716, e em 1735 aparecia a Farmacopéia Tubalense Quimica Galênica, teórica e prática, de Manoel Rodrigues Coelho, boticário da corte, que visava ter seu trabalho autorizado pelo governo, o que não conseguiu.
Em 1722 apareceu a obra de frei João de Jesus Maria, monge beneditino e boticário do convento e, finalmente, publicada por ordem de D. Maria I.
Em 7 de abril de 1794 foi mandada adotar a Farmacopeia Geral para o Reino de Portugal e Domínios, de autoria de Francisco Tavares, professor da Universidade de Coimbra, obra cujos preceitos não era lícito ao profissional se afastar, mesmo quando o próprio autor a reconheceu insuficiente, sendo por isso, o mesmo autor, levado a escrever uma Farmacologia, em 1809.

Para saber mais: http://www.jornalconceitosaude.com.br/a-historia-da-farmacia-a-historia-da-farmacia/


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Pequena História da Farmácia Brasileira

Os primeiros povoadores, náufragos, degredados, aventureiros e colonos aqui deixados por martim Afonso, tiveram de valer-se de recursos da natureza para combater as doenças, curar ferimentos e neutralizar picadas de insetos.
Para combater a agressividade do ambiente, e a hostilidade de algumas tribos indígenas os primeiros europeus tiveram de contornar a adversidade com amabilidade, e com isso foram aprendendo com os pajés a preparar os remédios da terra para tratar seus próprios males.
Remédio da “civilização” só apareciam quando expedições portuguesas, francesas ou espanholas apareciam com suas esquadras, onde sempre havia um cirurgião barbeiro ou algum tripulante com uma botica portátil cheia de drogas e medicamentos.

As coisas ficam assim até que a coroa portuguesa resolveu instituir no Brasil o governo geral, e o primeiro a ser nomeado foi Thomé de Souza, que veio para a colônia com uma armada de três naus, duas caravelas e um bergantim, trazendo autoridade, funcionários civis e militares, tropa de linha, diversos oficiais, ao todo aproximadamente mil pessoas que se instalaram na Bahia.
Vieram também nesta armada seis jesuítas, quatro padres e dois irmãos, chefiados por Manuel da Nobrega. O corpo sanitário da grande armada compunha-se de apenas um boticário, Diogo de Castro, com função oficial e com salário. Não havia nesta armada nenhum físico, denominação de médico na época. O físico-mor, só viria a ser instituído no segundo governo de Duarte da Costa.
Dentre os irmãos destinados ao sul do país, estava a criatura humilde e doentia de nome José de Anchieta. Os jesuítas eram mais práticos e previdentes que os donatários e, até do que os próprios governadores-gerais, e trataram logo de instituir enfermarias e boticas em seus colégios, e colocando um irmão para cuidar dos doentes e outro para preparar remédios. Em São Paulo o irmão que preparava os remédios era José de Anchieta, por isso podemos considera-lo o primeiro boticário de Piratininga.
Anchieta relata em suas cartas: “Em nós outros tem médicos, boticários ou enfermeiros...todavia fiz-lhe eu os remédios que pude...”
A princípio os medicamentos vinham do reino já preparados. Mas a pirataria do século XVI e as dificuldades da navegação impediam com frequência a vinda de navios de Portugal, e era preciso reservar grandes provisões como acontecia com São Vicente e São Paulo. Por estas  razões os jesuítas terminaram sendo os primeiros boticários da nova terra, e nos seus colégios as primeiras boticas onde o povo encontrava drogas e medicamentos vindos da metrópole bem como, remédios preparados com plantas medicinais nativas através da terapêutica dos pajés.
Importantes boticas sob a direção dos jesuítas tiveram a Bahia, Olinda, Recife, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo.
“Por muito tempo, diz o padre Serafim Leite, as farmácias da companhia foram as únicas existentes em algumas cidades. E quando se estabeleceram outras, as dos padres, pela sua notável experiências e longa tradição, mantiveram a primazia. O colégio do Maranhão possuía uma farmácia flutuante, o Botica do Mar, bem provida, que abastecia de medicamentos os lugares da costa, desde o Maranhão até Belém do Pará”.
A botica mais importante dos jesuítas foi a da Bahia, sua importância a tornou um centro distribuidor de medicamentos para as demais boticas dos vários colégios de norte a sul do país. Para isso, e como a Bahia mantivesse maiores contatos com a metrópole, os padres conservavam a botica bem sortida e aparelhada para o preparo de medicamentos, iniciando, inclusive, o aproveitamento das matérias primas indígenas.
Os jesuítas possuíam um receituário particular, onde se encontravam não só as fórmulas dos medicamentos como seus processos de preparação. Havia também método de obtenção de certos produtos químicos, como a pedra infernal (nitrato de prata).
O medicamento extraordinário, no entanto, a penicilina da época, era a Trígara Brasílica, que se manipulava mediante fórmula secreta. Essa trígara, se usava contra a mordedura de cobra, varias doenças febris, e principalmente como contraveneno, tinha grande fama e era considerada tão boa quanto a de Veneza, pois agia pronta e rapidamente com a vantagem de, em sua composição, entrarem várias drogas nacionais de comprovada eficiência.
(Continua...)


domingo, 23 de abril de 2017

A Hanseníase e os benefícios do óleo de caju

Adam e seus colaboradores levaram a efeito o estudo da relação entre a constituição dos ácidos hidnocárpico e chaulmoogrico e sua atuação sobre o Bacillus leprae. Eles verificaram que a modificação no radial cíclico pouco influi e sim o radical alkil de carbono 16 para 18. Atualmente emprega-se, no Brasil, hidnocarpato de etila e chaulmograto de etila, de mistura (etilídios, no nosso conceito), preparando-lhes, em São Paulo, por Helena Possolo; no Rio, por Humberto Cardoso; no Ceará, por Osvaldo Rabelo.

A adição de um halogênio, iodo, poderia aumentar a atividade dos radicais desses referidos ácidos. O exacerbamento, de atividade, nessas condições, deve ser prejudicial aos doentes: bem ponderando, o iodo ligado ao radical do ácido chaulmoogrico entraria, dissimuladamente, no seio da matéria viva do leproso e encontrando-a já combalida por carência de elementos de defesa por causa da nocente ação do possível enzímio secretado pelo Mycobactéria (enzimio de alto poder oxidante), atuaria, é possível, sobre As globias, desagregando-lhes os bactérios; mas esse trabalho de desagregação não teria efeito desejado por isto que a ação oxidante do iodo, fatal, refletiria sobre as substâncias de defesa dos elementos figurados escorchando-os por oxidação a ponto de produzir até a floculação dos heteroproteinas, choques coloidoclásicos e, possivelmente, a morte somática. Por isto, segundo entendemos, devem-se ministrar preparações iodadas, aos leprosos, em dose oligodinâmica e associadas ao insaponificável do óleo de caju. O lipídio portador do iodo, em tais preparações, deve ser formado de esteres dos ácidos oleico e linoleico, respectivamente. Mesmo assim, faz-se necessário o ministrarem-se aos doentes, antes, durante e depois do tratamento, preparações ricas em ácido ascórbico (vitamina C), cloridrato de tiamina (vitamina B), glutatião e extrato hepático.
 O sábio leprólogo brasileiro Dr. Achiles Lisboa, belo talento e cultura das mais sólidas do Brasil contemporâneo, em entrevista concedida ao “Diário do Norte”, maranhão, em linguagem elegante, faz a respeito dos óleos iodados, o seguinte comentário: “Pareceu-nos que nos óleos iodificados estaria o elemento terapêutico, que pudesse levar à intimidade das globias tão poderoso agente medicamentoso.
Era de observação que toda vez que se aplica nos leprosos um produto iodado qualquer, há uma franca lise microbacterial, com visível granulação dos microbacterios, reação febril por um verdadeiro choque colidaclasico, em virtude do derrame na circulação da andotóxina deste agente patogênico, que assim se liberta pela dissolução das globias. A esta reação, sucede um melhoramento das lesões.”
Ao Dr Achiles Lisboa não passou despercebida a influencia do colesterol no sentido de atenuar as intoxicações devidas a introdução dissimulada do iodo no seio da matéria viva por isto que esse esterol ocorre normalmente nas células dos animais e pode, em casos como esses, atenuar a ação oxidante do iodo, fazendo-o transformar-se em substância que sobre serem imprescindíveis ao quimismo dos organismos dos animais superiores são capazes de impedir processo de hemólise, processos de desidratação e floculção.
As observações do Dr Moraes Filho, quando Diretor da Colônia Antonio Justa, Maracanaú, Ceará, confirmaram, em 20 doentes, as propriedades farmacêuticas dos principais componentes do óleo de caju, reveladas, em todos, por “aumento de força, maior disposição para o trabalho, maior resistência ao esforço físico, acentuada e benéfica influencia sobre os olhos; em outros, especialmente, na refazer das unhas, na ação sobre o mal perfurante e sobre a Keratose da pele, a volta da sensibilidade”.


Bibliografia: Furtado, Joaquim Juarez; Revista Brasileira de Farmácia – março de 1946. 

domingo, 16 de abril de 2017

Capim Limão é planta que dá o “lemon-grasses”.

No passado ao longo de estradas de ferro e de rodagem de nosso país, o viajante viam, em numerosos trechos, as viçosas touceiras de uma gramínea, ordenadas. Prendendo a terra desenvolvida trama radicular, ela protege o leito da estrada das erosões e desbarrancamentos. Quando se esmagam entre os dedos as suas lâminas, exala um penetrante aroma de limão. Daí o nome popular de “capim limão”, que lhe é dado, ao lado de outros, equivalentes.
Cymbopogon citratus, (D.C.) Stapf
Essa gramínea é, pois, um dos “lemon-grasses” que tão grande aplicação em perfumaria e farmácia têm, em todo o mundo. Entretanto, no Brasil, é rarissimamente para o fim da obtenção da essência e a sua aplicação reduz-se em relação à proteção das estradas, a obtenção de chás caseiros, empregados para tratamento de distúrbios gástricos ou nervosos.
O “capim-limão” é forte, porém, de valioso óleo essencial, de muita procura e relativa escassez no mercado nacional. Toma-se interessante proceder ao estudo sistemático da planta produtora, das condições de sua utilização como matéria prima para a extração de essência dela obtida. Visando sua incorporação ao arsenal fitoterápico, impõe-se também o seu estudo farmacognóstico.
Nomes vulgares; Capim limão, capim cidreira, capim cheiroso, Erva cidreira, Jacapé e jaçapé.
A designação de “jacapé, ou Jaçapé”, nitidamente indígena significa cáa, folha; apé, chato.
O nome botânico é Cymbopogon citratus, (D.C.) Stapf. O habitat é provavelmente a Índia e aclimatou-se nos trópicos de todo o mundo, mas é cultivada em países como Ceilão, Java, Formosa, Birmânia, Filipinas.
No Brasil é muito cultivada para sustentação de barrancos a beira das estradas de ferro e de rodagem.
É planta de grande resistência e versatilidade,
Grande variedade de solos e de climas. Parece claro que os solos úmidos e encharcados, assim como as zonas frias sujeitas a geadas, não lhe são favoráveis. Os terrenos argilosos e silico-argilosos fornecem ótimas condições de desenvolvimento. A plantação se faz, longe da época das chuvas por mudas enraizadas, arrancadas das touceiras. A não ser o aconchego de terra nos primeiros tempos, nenhum cuidado especial é requerido para o seu desenvolvimento. É boa prática a formação de um viveiro, onde as mudas, após atingir nove meses, são transplantadas para o local definitivo. O vegetal permite numerosos cortes por ano.
A principal característica deste vegetal e a alta presença de citral.

Bibliografia: Revista brasileira de Farmácia – Abril de 1945 – C.H. Liberalli, J.H. Helou, Ada A. França.


domingo, 9 de abril de 2017

O valor terapêutico do óleo de Sucupira

Sucupira é uma árvore da flora brasileira inscrita na primeira farmacopeia brasileira, cujo nome científico é Bowdichia virgilioides  da família das leguminosas.
Nas Matas do Amazonas ou Mata Atlântica esta leguminosa é abundante.
Pode mudar o porte da planta, suas maior ou menos ramagem porém e sempre o mesmo vegetal.
Folhas de Bowdichia virgilioides
A nossa farmacopeia incluiu a Sucupira em seu texto, descrevendo apenas a casca, como a parte utilizada na medicina, e para as representações farmacêuticas assinala o extrato fluído e a tintura de sucupira, não falando no óleo, nem nos tubérculos, que também possuem propriedades medicinais e curativas em determinadas enfermidades.
Assim, como centenas de milhares de exemplares de nossa flora, Sucupira, não falando no óleo, não tem estudo completo de sua individualidade botânica, há não ser notas esparsas, a descrição da casca que consta na farmacopeia, e ultimamente o professor Antenor Machado escreveu sobre o óleo, porém não nos foi possível obter tal escrito. Os nomes vulgares desta planta são: Sebipira, Sicupua, Sebupira-guassú, Curubaimirim, Sipipira.
Flores de Sucupira
Além do nome científico consignado na farmacopeia, há o atribuído por Martius: Bowdichia major. É um vegetal de porte majestoso de porte avantajado de 8 a 10 metros de altura e há exemplares mais robustos, principalmente no Amazonas, sendo seu diâmetro médio do caule de meio a um metro.
O caule apresenta em sua parte externa a casca, de cor escura parda, rugosa, com aspecto de verrugas de cor de ferrugem, rachas longitudinais profundas e algumas fendas transversais bastante espaçadas. Sabor amargo e adstringente. Esta descrição é da casca do caule. Retirada esta camada aparece à parte lenhosa, de cor diversa, amarelada, resistente tornando-se assim excelente madeira para carpintaria, para fabricação de móveis, esquadrias e portas.
Martius, menciona que assistiu no norte do Brasil um médico baiano empregar as sementes torradas, moídas, fazer depois um infuso, como se prepara o café, que tomamos diariamente, e usar tal bebida no tratamento do linfatismo, falta de energia, um café de sementes torradas e moídas, de Sucupira.
As sementes são empregadas, sob forma de tintura, no tratamento do reumatismo, nas formas articulares agudas ou crônicas e mesmo no denominado gotoso; também as sementes podem ser maceradas em vinho, ou sob forma de infuso. Como gastrointestinais e hepáticas tem encontrado nas sementes de Sucupira um benéfico medicamento de ação já comprovada.
O óleo de Sucupira é extraído das sementes pelo processo de expressão. É um óleo viscosa sendo a percentagem das sementes entre 10 e 14%; quando impuros este óleo é parecido com o de Copaiba.
A essência pode ser retirada destilando o óleo e se obtém um óleo essencial bastante claro, insípido e insolúvel em 10 volumes de álcool a 90º.
O caboclo é quem utiliza o óleo de sucupira no reumatismo, de inflamações e como remédio de feridas infecionadas. É bastante útil em fricções na pele, por não ser tóxico.


Bibliografia: Revista brasileira de Farmácia – Fevereiro 1948 – Professor Heitor Luz