quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Ehrlich seus corantes e a identificação dos micróbios

hrlich era mau experimentador, descuidado e trapalhão;   espirrava as tintas e as bactérias por tudo em sua mesa, pelo quarto e pela roupa. Espirrava tudo, sangue dum homem que acabara de morrer de tifo, partículas de tecido dum cancro, escarro duma mulher a morrer de tuberculose tudo com que trabalhava.
Talvez fosse um desses acidentes que o contaminou de tuberculose e o forçou a procurar o clima do Egito. Ehrlich ignorava o seu estado, mas muitos colegas nunca esperaram pelo seu regresso da África.
Instituto Robert Koch - Berlim - Alemanha
Se Ehrich morresse no Egito, na idade de 33 anos, a ciência teria perdido um homem já famoso pela técnica da inspeção da célula, pela descoberta de novos colorantes anatômicos e de novos modos de emprega-los; um homem que chegara até a encontrar o colorante para o terrível bacilo de Koch, isolado cinco anos antes – e que agora estava “colonizando” os seus pulmões.
Mas Ehrlich não morreu de tuberculose na África. Voltou para a Alemanha sem incomodar-se muito consigo, embora prometesse á esposa mais cuidado para o futuro – promessa jamais cumprida. Estava já com 35 anos e tinha tanto trabalho pela frente! Voltou para Berlim, onde sua mulher – que graças aos deuses da ciência possuía algum dinheiro – comprou-lhe um pequeno laboratório cheio de ricas anilinas.
E então Robert Koch apareceu, coberto com os laureis da descoberta do bacilo-vírgula, produtor do cólera, do micróbio em forma de bastonete que infecionava os olhos das crianças egípcias e da ameba que provoca a disenteria. Tornara-se um dos grandes caçadores de micróbios do mundo, e especialmente para ele a Alemanha criara o Instituto das Doenças Infecciosas de Berlim.
- Venha comigo, foi o apelo de Koch a Ehrlich. Vai gostar dos nossos homens – Gaffky, Loeffler, Pfeiffer, Welch  da America, Kitasato de Tóquio – mas não terá de trabalhar com eles. Disporá dum laboratório próprio e de tudo próprio. E trabalhará no que quiser...
E desse modo lá se foi Erhlich co os seus amados frascos para o Instituto de Koch, começando logo a trabalhar nas mais estonteantes combinações de cores. Em sua cabeça incubava-se algumas ideias novas, advindas quando tossia sangue lá no Egito. Os caçadores de micróbios andavam a pensar na imunidade, e Carl Weigert dera a Ehrlich uma admirável concepção a respeito. Assim, enquanto Koch se punha a caça de novos micróbios e lutava contra o cólera em Hamburgo, o pequeno Ehrlich quedava-se em seu cubículo procurando descobrir por que os animais se tornavam imunes não só ao bacilo da difteria e do antraz como também a certos venenos terríveis. E Ehrlich experimentou uma novidade de sensação – a coloração dos tecidos dos animais vivos.
- Herr Gott!!! Teria Ehrlich exclamado. Olhem-me para isto. Eu injeto azul de metilene neste ratinho e todos os terminais nervosos ficam azuis. Por que motivo o azul só colore as extremidades dos nervos?
Por causa da afinidade, evidentemente – por causa da afinidade que existe entre esse colorante e as células nervosas. E Ehrlich raciocinou que deveria haver uma afinidade entre outras células e outras drogas, entre as células do corpo e as drogas, entre as células dos micróbios e as drogas. Se fosse possível encontrar uma afinidade – ou um caso de amor químico – entre algum micróbio e alguma droga matadora de micróbio...

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O pintor de micróbios caça doenças

Paul Ehrlich, o influenciador da vida de milhões de criaturas as quais salvou de triste morte, foi por sua vez muito influenciado por dois homens. Um, seu primo Carl Weigert, o solitário, patologista que gastou vinte anos a colorir as fibras nervosas de modo que pudessem ser observadas ao microscópio. Outro, Robert Koch, o medico rural que revolucionou a caça ao micróbio com a descoberta do bacilo da tuberculose e de mais outros facinorosos serezinhos e afinal encerrou a sua espetacular carreira com uma ainda mais espetacular aventura de amor: fugiu com uma corista.
Paul Ehrlich - Prêmio Nobel de Biologia
Em 1876 Koch de seu pequeno laboratório rural para o posto de médico municipal da cidade de Breslau. No primeiro dia em que saiu a visitar a escola medica os emperrados e nada cordiais professores acompanharam-no gravemente. No departamento de patologia indicaram-lhe um jovem estudante numa mesinha cheia de colorantes.
- É o nosso pequeno Ehrlich, um excelente coloridor de tecidos mas que nunca passará nos exames.
O pequeno Ehrlich de fato nunca passou nos exames, porque nunca se interessou por eles. Andou de escola em escola, de Breslau a Strasburgo, de Strasburgo a Leipzig, deixando atrás de si todas as mesas sarapintadas, e os professores a sacudirem a cabeça.
- Ehrlich? Ah, um abominável estudante. Não aprende coisa alguma. Não decora nada. – mas é mestre em tintas. Devia ter-se dedicado á pintura.
Seus professores podiam tê-lo barrado das classes, que ele aliás pouco frequentava, porque Ehrlich não era o tipo do bom estudante de medicina – mas os professores daquele tempo não davam muita atenção a tipos de estudantes e coisas assim.
Se o professor de matéria medica acusava Ehrlich de não saber de cor as milhares de drogas existentes, outros professores intervinham: “Tenha paciência com o rapaz. Quem sabe se com aquela mania de tintas ainda não acaba fazendo uma grande descoberta? Pode encontrar algum novo meio de diagnóstico ou descobrir algum novo tecido ou célula”. E desse modo foi decidido que se Ehrlich desejava levar o seu curso de medicina daquele modo tão irregular, que levasse, só ele tinha a ver com isso.
Ehrlich teve de prolongar o curso por mais um ano, mas afinal diplomou-se – não que passasse nos exames, mas porque seus mestres levaram em consideração as suas experiências praticas. E por meio daquele irregularismo desvio dos sistemas de pesquisas acabou criando um novo ramo da ciência do sangue.
Por aquele tempo o jovem cientista já havia descoberto cinco novas qualidades de células sanguíneas.
Se Ehrlich começou como mau estudante, continuou como péssimo médico. Quando os colegas saiam a correr as enfermarias, ele ficava em sua mesa a colorir finíssimas fatias de fígado. E se acaso visitava um doente, deixava-lhe nas roupas do leito manchas de vermelho ou laranja. Se chamado para atender um parto, interessava-se mais em obter um bom fragmento de tecido placentário do que notar o peso, o sexo e o estado da criança.
Nada interessava Ehrlich, só colorir tecidos e pesquisar bactérias.
Bactérias! Aqueles microscópicos serezinhos precisavam de cor; eram tão insignificantes que o médico tinha dores de cabeça do esforço de vê-los no microscópio. E de que outra maneira poderia saber se um tecido estava infeccionado, se não podia distinguir as bactérias? Mas e pudesse dar cor ás bactérias, seria fácil diagnosticar a infecção causadora duma morte!

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Os micróbios e a redescoberta do fenol

Lister repetiu quixotescamente as experiências de Pasteur, verificando pessoalmente que onde não havia bactéria não havia putrefação.
E Lister tornou-se então um matador de micróbios. Convenceu-se de que a podridão dos hospitais, as gangrenas horríveis e os envenenamentos do sangue eram causados por micróbios – micróbios que entram no corpo quando a pele é cortada.
Devia haver um meio de manter à distância estes micróbios ou mesmo mata-los. Lister aos artigos de Pasteur, mas o sábio francês estava apenas interessado na fermentação dos vinhos e outros. Pasteur matava os micróbios por meio da fervura – mas como ferver um paciente?
Analisando o esgoto de uma estação de tratamento de esgoto.
Lister consultou de novo o mestre da química.
- Meu caro Anderson, estou em procura de qualquer coisa que mate micróbios – algo que não seja fogo. Preciso dum agente químico, uma substancia benigna para o nosso corpo, mas letal para os micróbios. Que é que sugere?
- Há, respondeu Anderson, um certo numero de velhas drogas desse tipo, antissépticos que suspendem a putrefação.
Há o álcool e a glicerina; há o benjoim e alguns óleos vegetais.
São historicamente antigos, mas pouco efetivos. Realmente eu não posso...Espere! E o fenol?
Lister fez cara de ignorância.
- Que é fenol
- Oh, o mesmo que acido carbólico – produto extraído de alcatrão e você conhece os efeitos do alcatrão.
- Engana-se. Não conheço.
- Sim, não é químico... Pois o alcatrão ou pixé tem usado a séculos. Os egípcios muito provavelmente o usavam na preservação de múmias. Nós o usamos para preservar a madeira, e sobre tudo os dormentes. O pixé interrompe o apodrecimento. É provável que também mate os seus micróbios.
- Talvez, murmurou Lister. Talvez...Obrigado, Anderson. Hei de pensar nisso. E se eu precisar desse fenol ou acido carbólico?
- Há um tal Freddy Calvert, em Manchester, que eu conheço. Anda a extrair fenol em pequena escala.
Lister parafuso naquilo. A calamidade dos hospitais não lhe saia da cabeça. Era um homem bem dotado de sentimentos, mas prudente e que a nada se arriscaria sem ter adquirido certeza. Além do mais, ninguém ainda havia demonstrado que os micróbios realmente fossem causadores de doenças.
Semanas mais tarde sua esposa lhe chamou a atenção para um pequeno artigo de jornal.
- Joseph, disse ela, eis aqui qualquer coisa sobre o acido carbólico de que você falou. O Dr. Crookes usa-o nos esgotos de Carlisle.
- Sim? E que mais diz?
- Diz também que o acido carbólico acaba com o mau cheiro da putrefação nos esgotos. Como pode ser assim, Joseph?...
- Indubitavelmente mata os micróbios responsáveis pela putrefação.
- Matar os micróbios, Joseph? Serão os micróbios uma coisa tão má que até produzem mau cheiro?
- Minha cara, respondeu Lister, eles talvez ainda sejam piores. Suspeito que são causadores das doenças humanas. Eles...Mas qual é o nome do homem que Anderson referiu? Calvet,  perece. Vou escrever-lhe uma carta logo de manhã. Hum... Com que então o acido carbólico acaba coma putrefação nos esgotos...
Quando uma certa quantidade de acido carbólico chegou de Manchester, o cirurgião de Glasgow impressionou-se mal. Era um líquido escuro, de cheiro desagradável, muito longe de inspirar confiança na sua ação germicida. Lister ainda ignorava que os jornais científicos, por ele lidos por falta de tempo, davam o acido carbólico como um dos mais poderosos matadores de germes. Ignorava que os químicos alemães haviam provado que o fenol interrompia a putrefação em poucos segundos. Ignorava que os farmacêuticos franceses e uns tantos médicos estavam procurando curar feridas com pós ou líquidos com base de fenol. E também não sabia que mesmo na Inglaterra aquele produto já fora usado como antisséptico durante a peste bovina.
Lister não sabia nada disso, apesar de serem coisas de grande significação. A medicina precisava que alguém redescobrisse o fenol e fizesse alguma coisa dele.

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A ação dos micróbios no mundo das cirurgias

Uns tantos médico no mundo do sculo XIX tentavam de todas as maneiras acabar com o matadouro que os hospitais eram. Cegamente por intuição, recomendavam mais ar nas enfermarias, lavagem das paredes com lixivia e muitas vezes completo abandono de certos prédios, irredutivelmente maus.
Num deles, o chefe da clinica costumava afixar anualmente um aviso: “vai entrar a estação da erisipela nas enfermarias; ficam suspensas as operações até março.”
No Hospital de S. Thomas, em Londres, havia uma desbotada advertência na parece da sala onde os estudantes dissecavam cadáveres putrefatos. “Os que estiverem dissecando ou fazendo qualquer trabalho post-mortem, devem lavar as mãos com solução de soda cloratada antes de irem ver os pacientes.” Mas ninguém se incomodava com isso; e quem acaso tomasse o aviso ao pé da letra, não encontraria a “solução de soda cloratada”.
Em Budapeste o aloucado Ignaz Semmelweis procurava em vão convencer o mundo
médico de que a culpa das tais “doenças dos hospitais” cabia aos próprios médicos, que de passagem de uma enfermaria a outra iam levando consigo o contagio. Mas a maioria dos cirurgiões curvava-se diante do “fardo da profissão” e reclamavam dos horrores subsequentes ás operações eram inevitáveis. “Suprimir o pus! Oh, mas isso não é desejável! Afinal de contas o pus é necessário para que a ferida se feche”. E quanto à sugestão de que os doutores eram os responsáveis por tantas mortes, a resposta era: “Senhor, nós não apreciamos os vossos insultos!”
E assim até que em 1860 o Dr. Joseph foi para Glasgow como professor de cirurgia da universidade. Durante quatro anos esse homem combateu a podridão dos hospitais, avassaladora em todas as enfermarias. Por quatro anos fez as enfermaria e os cirurgiões da casa lavarem as mãos frequentemente (“O bobo! Não vamos sujá-las de sangue novamente?”). Por quatro anos lutou com a diretoria do hospital por motivo de mais toalhas limpas, pensos bem lavados para o tratamento das feridas, e mais e mais desodorantes.
Certo dia, no outono de 1864, Lister saiu do hospital acompanhado de seu companheiro de professorado, o químico Thomas Anderson.
- Escute, Lister, perguntou Anderson. Qual é a sua opinião sobre esse camarada Louis Pasteur?
- Pasteur? Louis Pasteur ? repetiu Lister franzindo os sobrolhos. Não me recordo de tal nome. Francês?
- Sim, e notável. Não o conheço pessoalmente, mas estive lendo seus artigos no Comptes Rendus. Anda a fazer novidades com as bactérias. Diz que elas são as responsáveis pela putrefação e a fermentação.
- Ideia interessante, não há dúvida. Bacterias, sim ...
- Bacterias e outros micróbios. Podem ser os causadores da putrefação das feridas e da formação do pus que tanto atrapalha você operadores.
Lister tomou o caminho de sua casa e refletiu naquilo. E como fosse um constante investidor, dirigiu-se logo a biblioteca e leu os artigos de Pasteur nos jornais médicos da França. “É extraordinário!” pensou. “Com o que já descobriu em suas experiências, creio que... Mas serão os micróbios os causadores das doenças? Inacreditável e no entanto...” E Lister virou o caçador de micróbios.

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943.


sábado, 27 de agosto de 2016

Os novos medicamentos e a podridão dos hospitais.

Luiz XVI não tinha vontade comprar segredos de remédios vindos do novo mundo. Ainda assim, ele comprou em 1776 por 18 mil libras o segredo do feto macho para curar a opilação. Ele não estava realmente interessado na cura da doença, mas sim em imitar seu antecessor Luiz XIV. A maioria dos médicos compartilhavam da frieza de Luiz XVI para com os novos remédios. O que os interessava, em matéria de males humanos, eram a tuberculose, a difteria, o tifo; achavam difícil admitir que esses tais ancilotomos, a tênia, as lombrigas e outros parasitas dos intestinos fossem coisas serias e muitas vezes mortais.
Louis  Pasteur
“Atentemos no modo de agir deste remédio”, raciocinaram eles. “Expulsa os vermes dos intestinos e a doença desaparece. Logo, a causa da doença eram os vermes”.
Logo os médicos começaram a alimentar ideias estranhas. “Se há grandes vermes em nosso organismo, visibilíssimos, porque não os haverá tão pequenos que sejam invisíveis? Quem saber seres invisíveis também não causadores de doenças? E se certas drogas matam os vermes visíveis, deve haver drogas que matem os invisíveis...”
Um ignorado químico da França, homem doentio, muito ruminava sobre esse ponto. O seu nome era Louis Pasteur. Também havia um impetuoso farmacêutico em Paris , Jules Lemaire e um quase parteiro húngaro, Ignaz Semmelweis, que lutavam para dar forma verbal a tais pensamentos. E havia o bondoso e espirituoso medico americano, Oliver Wendell Holmes, que escrevia com tanta facilidade.
E, recentemente chegado a Glasgow, 1860, havia um sereno e brilhante cirurgião, o jovem Dr. Joseph Lister...
A cirurgia em 1860 ainda era uma coisa muito rudimentar. Poucos cirurgiões ousavam ir além de ossos quebrados, tumores superficiais e coisas assim simples. O que pretendesse ir além e fazer, por exemplo, uma operação abdominal, correria o risco de ser chamado de assassino ou louco.
Poucos eram o pacientes se entregavam á faca dos médicos, e na maioria dos hospitais todo o trabalho cirúrgico da semana era realizado, sem pressa, nas tardes das quartas feiras.
Nas salas operatórias os cirurgiões trabalhavam vestidos de camisolão sangrento, enxugavam as facas nas mangas, costuravam incisões com fios de linha suja, tirados do bolso.
A operação mais comum era cortar um membro, em regra feita como corajosa tentativa para salvar a vitima duma fratura exposta já atacada de putrefação. As amputações eram consideradas como regularmente seguras; um medico londrino gabava-se de só perder um caso em quatro, e citava as porcentagens de 26% de mortos em Massachussetts, 43% em Edinburgo, 46% em Zurich e 60% em Paris – seis mortos em cada dez operações.
Nas enfermarias, numa atmosfera de perpetua fedentina, os pacientes definhavam e morriam de envenenamento do sangue – de tétano, gangrena, erisipela e tantas outras sinistras doenças decorrente das mais simples operações. O mal morava na podridão dos hospitais que tanto medo inspirava ao povo; todos preferiam estar na sarjeta a ir pra cama de um hospital.

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943.

domingo, 21 de agosto de 2016

Ipecacuanha cura dor de barriga

Durante o reinado de Luiz XIV, um moço Holandês veio a Paris, renegou o nome que trazia de Schweitzer e com muita dignidade adotou o nome de Jean Adrian Helvetius; em seguida pensou em impingir nos parisienses todo o arsenal de panaceias criadas por seu pai, um insigne charlatão.
Afim de aprender um pouco de medicina, o jovem Helvetius meteu-se a aprendiz do Dr. Afforty e, muito mais depressa e melhor do que esperara o seu mestre, encheu-se de conhecimento sobre a hidropisia e a bouba.
Ipecacuanha
Certo dia os dois, mestre e discípulo, atenderam ao chamado de um negociante de nome Garnier, importador de produtos do Novo Mundo. O pobre Garneier estava bem doente e o Dr Afforty o fez piorar com uma sangria. Como, porem, fosse homem de constituição muito forte, resistiu à doença e ao tratamento. Garnier pagou a conta do médico e em adição ofereceu um pacote de cascara “recebidas ainda agora do Brasil e muito apreciadas lá pelos curandeiros nativos”.
O Dr Afforty polidamente recusou o presente – mas Helvetius aceitou-o. Não fosse ele filho dum charlatão dos que sabem o que om público quer. Helvetius lá levou as raízes sem saber para que serviam  mas tratou de o verificar, e foi disfarçadamente dando chá daquilo e quanto pacientes surgiam , fosse qual fosse a doença – malária ou bexiga, tifo ou indigestão, hidropisia ou dor de cabeça, tontura ou hemorragia. O Dr. Afforty tudo ignorava a respeito dessas experiências – mas que experiências o Dr Afforty não ignorava?
Um dia o curioso rapaz holandês experimentou as misteriosas cascas num doente de disenteria e curou-o! E a mesma coisa aconteceu com o segundo disentérico, e com o terceiro e um quarto. A ação do remédio era surpreendente. “Oh, isto é melhor que as drogas de meu pai, porque realmente cura”.
Não tardou que os parisienses vissem aparecer em sua cidade espetaculosos anúncios dum tal Dr Helvetius e dum grande remédio para a disenteria (“que acaba de chegar do  Novo Mundo”) – para a diarreia e mais perturbações intestinais. Milhares de pessoas sofriam dos intestinos e o jovem médico lhes dava o remédio reclamado – mas a identidade da casca era mantida em segredo. Realmente. Se todos soubessem que a disenteria era curável com o pó da raiz de ipecacunha vinda do Brasil, que lucro teria Helvetius?
Um dia o seu nome foi pronunciado no palácio do rei. O herdeiro do trono estava com disenteria e o medico da corte, D’Aquim, trouxe Helvetius para operar o milagre.  E o milagre operou-se. Restabeleceu-se o príncipe, o que induziu Luiz XIV a dar de presente ao mundo o conhecimento da milagrosa planta.
D’Aquin e o confessor do rei, padre La Chaise, procuram Helvetius; discorreram com ele sobre o tempo, as colheitas, pontos de teologia e depois, com muito jeito, entraram no assunto da misteriosa droga. Helvetius saiu desse encontro com mil luíses de ouro no bolso e sua nomeação para o cargo de Inspetor Geral dos Hospitais de Flandres, além de medico do Duque de Orleans.
Garnier imediatamente recorreu à justiça, reclamando recompensa, mas Helvetius soube defender os seus direitos.
Luiz XIV revelou o segredo da planta americana e isso foi negocio para a humanidade, pois a ipecacuanha, hoje chama de ipeca, constitui um valioso remédio contra a disenteria.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Bloqueando as mensagens do dor do cérebro

Em 1888 Carl Koller era assistente no Hospital Oftalmológico de Utrcht, na Alemanha. Terminado o prazo de seu contrato ele resolveu montar uma clínica própria, e para campo de ação escolheu a cidade de Nova York.
Antes da mudança de Koller para a América já os doutores americano vinham descobrindo as grandes coisas possíveis com a cocaína. Haviam começado o estudo da droga semanas antes da reunião de Heidelberg, e ao cabo de alguns meses tinham realizado descobertas.
Em South Norwalk, no estado de Connecticut, um fazendeiro estava limpando o revolver a arma disparou e a bala feriu sua mão. Esperou todo um dia pelo médico, o que lhe deixou a mão muito inchada e dolorosa. Veio o Dr. W.C Burker Jr, o qual examinou a mão; em seguida escusou-se por um momento enquanto lia qualquer coisa num jornal medico. Depois injetou solução de cocaína no nervo tronco, donde se ramificam os nervos da mão.
“Passando apenas cinco minutos”, relatou, “fiz uma profunda incisão de polegada e meia de comprimento, sem que o paciente desse qualquer sinal de dor”.
O Dr. Burke havia descoberto um importante truque de anestesia local- o sistema de injetar a cocaína num nervo tronco, de modo a bloquear as mensagens da dor mandadas aos centros capitais. Poucos dias mais tarde R.J.Hall e William Stewart Halsted, de New York, descobriram de novo essa mesma técnica. Injetando cocaína no nervo na parte superior da perna, verificaram que o pé ficava insensibilizado. O Dr Hall plantou mais um marco na solução do problema quando escreveu: ”esta tarde, tendo de obturar um dente e estando com a dentina em extremo sensível, induzi o DR.Nash, Da Rua 31, a experimentar o efeito da cocaína...”
A anestesia local penetrou na clínica dentária.
Ainda em New York, Leonard Corning fez duas descobertas significativas para o problema da anestesia local.
A princípio, quase que apenas por mera curiosidade vadia, injetou ele uma dose de cocaína em seu próprio braço, e notou que a anestesia durava vinte minutos. Injetou depois uma dose igual, mas amarrou bem apertado o braço na parte acima da injetada, e a anestesia durou quase cinco horas.
Corning ia inaugurar um novo tipo de anestesia. Começou uma série de experiências “... com o fim de determinar se era possível a anestesia local da corda espinal”... Entre duas vértebras dum cachorro injetou uma gota de cocaína, em pouco minutos toda a parte traseira do animal estava insensível – patas, ancas, cauda.
“Seja lá o que for disto”, escreveu ele, “o fato merece consideração”.
O que saiu daquilo foi o desenvolvimento da anestesia espinal.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943