sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Cipó Carijó e remédio para as flebites

Davilla rugosa Poirier, Ditleniacea sinomia vulgar: Cipó carijó, Sambaibinha, Folha de lixa, Capa homem, Cipó de caboclo.
O nome de cipó caboclo vem certamente do emprego que os nossos moradores do interior fazem de tal planta, bem como o de cipó de carijó, por ter sido empregada pelos índios carijós que foram os descobridores de suas virtudes e ensinaram aos portugueses o seu uso apanhar peixes, e iba, arvore, seguidas do diminutivo.
Davilla rugosa Poirier
O termo sambaibinha, ou como escreve Saint Hilaire Cambaibinha, vem de caa mbaya, ramos ou cipós próprios para se tecerem nassas (armadilhas ou cestas para apanhar peixes), e iba, arvore seguidas do diminutivo inha, para distingui-la da árvore cognominada Cambaiba.
É planta muito comum em todos os estados do país principalmente Rio de Janeiro, Minas Gerais e Santa Catarina, Bahia, Pernambuco até o Rio Amazonas. Fora do Brasil cresce também no Chile, Guianas e Suriname.
A parte geralmente empregada como medicamento é a folha. Seca a folha é inodora e de sabor adstringente e um tanto amargo.
Esta planta possui ação analgésica local e vasoconstrictora; dá excelente resultado no tratamento da orchite, da epidermite, das hemorroidas e de outras flebites e varizes. Aconselha-se seu emprego sempre há estase sanguínea com dores e inflamação. Dá resultado superior aos da beladona, hamamelis, pomadas mercuriais.
É usada geralmente sob a forma de extrato aquoso mole, associado a lanolina em pomada a 50% aplicada duas vezes ao dia.
Internamente é empregada sob a forma de extrato fluido ou de pílulas feitas com 0,25grs. do extrato mole (1 de 2 em 2 horas)

Bibliografia: Revista da Flora Medicinal – Rodolfo Albino Dias da Silva - 1925

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Jaborandi é planta que provoca suor

Viajando pelo centro de Pernambuco  Symphronio Coutinho ouviu falar de uma planta a que davam o nome de Nhguarandi ou Iaguarandi tida pelo povo como planta sudorifica, mas pouco empregada pois, também era tida como planta tóxica.
O Dr Coutinho procurou conhecer a planta e começou então a fazer uso dela, tendo antes experimentado em si com resultado esplendido, por isso confiou em apresentar seus resultados em Paris.
Pilocarpus pinnatifolius
A planta estudada e apresentada na Europa pelo Dr Coutinho era o nosso Pilocarpus pinnatifolius.
Depois de em 1873 ter empregado em larga escala a planta para as moléstias do fígado, partiu para Paris levando uma boa quantidade do vegetal.
Na França dirigindo-se a diversos sábios teve resposta desfavorável, pois naquele país o que provocava suor era o calor.
O Dr Rabuteau , no entanto, aceitou uma boa porção da planta oferecida pelo Dr Coutinho para testar. Desconfiado ele se dirigiu ao Sr Gubler, distinto professor de terapêutica da faculdade de Medicina de Paris e médico do Hospital Beaujon, o qual a princípio, teve dúvidas para aceitar a sugestão do Dr Coutinho.
Uma das primeiras experiências teve lugar em um aluno do Professor Gubler, M Nouet que transpirava com extrema dificuldade.
Na ocasião da visita do Prof. Gubler e em presença de seus alunos, Nouet ingeriu cerca de uma xicara da infusão morna de Jaborandi e continuou a acompanhar a visita.
Decorrido dez minutos, Nouet com o riso nos lábios dizia ao Dr. Coutinho  que nada sentia.um pouco mais e o professor Gubler, voltando de um leito para outro, admirava-se da quantidade de suor que aparecia no rosto de Nouet, afirmando este que não era só o rosto que estava inundado, senão também todo o corpo.
Depois de repetidas experiências feitas na enfermaria do Professor Gubler, no Hospital Beaujon, todas com bons resultados o Dr Coutinho publicou um artigo sobre o jaborandi, dando resumida notícia sobre essa planta.
A primeira noticia sobre esta planta saíram publicadas no Journal de Therapheutique em 10 de março de 1874.
O Jaborandi faz com que haja secreção por todas as vias secretórias do corpo, ou seja, mais saliva, mais suor, mais lagrimas, e até estimula a produção do suco gástrico. Também por causa disso, é inserida na alimentação de animais para estimular o rúmen e outras funções do aparelho digestivo.


Bibliografia: Revista da Flora Medicinal- Oswaldo de Almeida Costa- dez de 1948.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Embauba é medicamento para o coração

A árvore da preguiça, assim também chamada porque o animal preguiça sobe no seu tronco reto, para se alimentar dos seus frutos. Esta planta pertence ao gênero Cecrópia, família dos Artocarpaceas.
Cecrópia adenopus
Tem seu habitat nas regiões tropicais da América do Sul, principalmente Brasil, norte da Argentina e no Paraguai, está classificada na “Flora Brasiliensis”, de Martius com 37 espécies, muitas das quais tanto se assemelham que confunde o estudo que sobre elas tem sido feito. As duas principais medicinalmente falando são a Cecrópia adenopus à C. peltata.
No Paraguai, ao lado dos nomes populares que a identificam com as do Brasil, tem mais os seguintes: ambaú, ambay, ambarú,ammbaú, guaranay, culquin, haruma, uraké-seba, candelabro de braços, higuera indígena, árvore da preguiça.
Segundo o Dr. Alfredo da mata é de efeito o líquido que sai do talo fresco e da raiz, como um cárdico tônico, diurético. 
A extração dos princípios ativos da planta são sempre feitos com folhas da C. peltata e seu extrato fluido.
O Dr Mauricio F. Langon provou em 1915 através de estudos com seus pacientes em Montevidéu que houve sensível melhora em seus pacientes de afecções cardíacas, cardiopulmonares e cardiorrenais tratados com Cecrópia. Declara o Dr Mauricio que chegou a conclusão de que como cardio-tônico, a Cecrópia pode substituir com vantagem em muitos casos a digitális; dada a relativa pequena toxidez, por isso a Cecrópia deve ser administrada em maior abundancia. Ele considerava a planta como insuperável tônico para o coração nas afecções cardíacas e diuréticas.

Bibliografia: revista da Flora Medicinal – 1935 – Eurico Teixeira da Fonseca – Funcionário do Ministério da Agricultura e Trabalho do Rio de Janeiro.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Cipó Cruz remédio para mordedura de cobras

A Cainca, Caninana, Raiz preta, Cruzeirinha, Fedorenta, raiz de Frade ou Quina preta, é planta medicinal brasileira largamente usada. Esta planta era empregada pelo professor Henrique Roxo na forma de extrato fluido na metade do século XX.
A cainca foi encontrada, em 1777, pelo botânico peruano José Pavon, nas explorações que empreendeu no Peru, em colaboração com o naturalista Hipolito Ruiz.
Ambos estudaram largamente a flora do Peru e do Chile, relatando seus trabalhos no livro Flora Peruviana e Chilensis, publicada em 1798-1802.
Cainca, Cipó Cruz, Quina preta
Estes autores verificaram pertencer a Cainca ao gênero Chiococa de Patrick  Esta disposição dos ramos em cruz é que levou o povo a chama-la de Cruzeirinha.
Em 1815 , a Cainca foi descrita por Frederico Alexandre de Humbold, em colaboração com o botânico Aimé Jacques Alex Bponpland na sua obra Nova Genera et Species plantarum equinoctialum, com a denominação de Chicocca racemosa.
O esclarecimento sobre a diagnose botânica veio por Müller d’Argovia para a Flora Brasiliensis. Assim descrita: arbusto de 2 a 3 metros de altura, escadense, muito ramos, com ramos cilíndricos, delgados opostos, mais ou menos em cruz, lisos, nodosos; folhas opostas, curto pecioladas, inteiras, glabras, subovais ou elípticas, acumeadas peninérveas, cor verde escura e lustrosa na face superior e, na inferior, de cor verde mais clara, com estipulas de base ampla e curta ou longamente pontiagudas.
A Cainca gozou antigamente de grande reputação para combater os efeitos das mordeduras de cobras, principalmente da Caninana, de onde deriva um de seus nomes populares. Foi ainda a essa propriedade que o sábio von Martius lhe deu a denominação de anguifuga, cuja significação é que “afugenta cobras”.
Os curandeiros empregam a raiz no seguinte modo: a vitima da picada da cobra, dão uma mistura de turva de 1 colher de chá do pó da raiz com água ou aguardente: produzem-se imediatamente vômitos e, logo depois evacuações bundantes. Na mesma ocasião aplicam, sobre o lugar da picada, uma cataplasma feita com a raiz contusa e aguardente.
 A Cainca goza de propriedades purgativas, diuréticas e vomitivas.
É empregada em pó, na dose de 25 centigramas 3 a 4 vezes ao dia, na hidropsia, ou sob a forma de decocto (10 para 500 de veículo). Esse decocto é também usado para combater as febres palustres.
Em doses elevadas ela provoca vômitos repetidos.
O extrato fluido é empregado na mesma dose que o pó e o professor Henrique Roxo, em recente comunicado a Academia Nacional de medicina, diz ter com ele colhido muito bom resultados em doenças do fígado.
É também tida como poderoso tônico amargo e febrífugo.

Bibliografia: Revista da Flora Medicinal 1937 – Cainca Estudo botânico, Pharmacognostico e chimico - Jaime Cruz - farmacêutico

sábado, 31 de dezembro de 2016

Buscando as causas do beribéri na Ilha de Java.

Os médicos militares holandeses conheciam o beribéri – e quem não conhecia? Tratava-se de doença velha conhecida da grecia e de Roma. Doença que havia paralisado e deteriorado músculos no Egito, transformado homens em esqueletos no Japão, destruído criaturas na China, produzido milhares de náufragos nas longas lutas bélicas da Europa. Matava sem respeitar classe social. Este mesmo beribéri reaparecia como flagelo dos holandeses na zona malaia.
Vulcões da Ilha de Java
Hospitais brotavam em Java, nas Celebes e outras pitorescas ilhas e em 15 dias lotavam de pacientes com beribéri. Pior que não se tratava de uma coisa epidêmica, dessas que se agrava de súbito depois se acalmam; era coisa constante, perpetua, e os nativos riam-se ao ver os holandeses tombarem por invisíveis balas.
Depois de dez anos desta hecatombe, os holandeses de Java pediram socorro aos seus compatriotas em Utrecht e Amsterdam.
-Procurei um remédio para esta doença, ou estaremos fritos.
- Doença? Murmuraram na Europa os consultados. Deve andar ai um micróbio. Mandaremos para lá os nossos melhores caçadores dos invisíveis – e pensaram em Cornelis Pekelharing, professor em Utrecht; esse homem estudava proteínas na escola veterinária oficial em Utrecht.descobrira o bichinho que em sua opinião provocava a calvice. Também escolheram o professor Winkler, autor duma tese sobre o bacilo da tuberculose ( que não conseguira encontrar) e também mestre em doenças nervosas.
E lá foram para Berlim os dois sábios a fim de aconselhar-se com Robert Koch o recente descobridor do tão procurado micróbio.
- Eu gostaria de ir com vocês, disse Koch, um velho apreciador de países distantes, mas não posso deixar Berlim. Apenas posso indicar um estudante que tenho aqui, compatriota de vocês – o Dr. Christian Eijkman.
O indicado era um moço de 28 anos e já conhecedor do beribéri, dois anos antes servira como cirurgião militar na pequena cidade javanesa de Tjilatjap, onde travara conhecimento pessoal com os estragos feitos por essa doença.
Assim, os três cientistas, mais os necessários auxiliares partiram da Holanda em outubro de 1886. Em novembro chegavam a Batavia, onde se puseram a obra num pequeno laboratório do hospital militar de Wltevredem. Três meses passaram ali; em seguida, mais três meses no campo; e mais três meses de novo no laboratório. Exatamente nove meses depois estava de volta Holanda.
Haviam descoberto o “micróbio produtor do beribéri”.
Porque era preciso que fosse um micróbio. Beribéri, doença misteriosa? Oh, a causa de todas as doenças misteriosas estava sempre num micróbio. Mas tudo quanto eles haviam encontrado não passava de um pequenino germe, presente apenas em 15 de cada 80 beribéricos, o qual germe, injetado num cachorro, adoecia o animal e às vezes escangalhava os nervos.
E como haviam concluído que aquele bichinho “era talvez a causa do beribéri”, antes de regresso a Holanda aconselharam aos médicos javaneses o uso abundante do sublimado corrosivo e outros poderosos germicidas na desinfecção das roupas, assoalhos, mobília, teto e mais superfícies expostas ao ar. Mas aqueles sábios haviam tido uma brilhante inspiração: sentindo que o assunto não estava plenamente decidido, induziram as autoridades a manter em Java um serviço permanente de estudos a cargo de Eijkman. Até aquele momento o cientista olhava para a doença como algo tedioso. Enquanto chefes dramaticamente perseguiam os micróbios, ele se deixava ficar no laboratório quente como uma estufa. Enquanto os outros romanticamente lutavam contra a morte nos hospitais, ficava Eijkman ali a contar glóbulos vermelhos do sangue. Enquanto davam combate a uma praga, ele media a hemoglobina.
Mas agora tudo mudara. Sozinho e dono de si mesmo, ele pretendia descobrir o micróbio verdadeiro – porque estava certo de que era um micróbio, e isso o levaria a gloria.
Aos trinta anos tornou-se o chefe, o diretor supremo e praticamente o único cérebro do suarento Laboratório Bacteriológico, Patológico e Anatômico das Índias Holandesas, onde durante dois anos se esforçou por arrancar alguma coisa da muda massa de dados coletados.
- Deve haver um micróbio – mas onde está?
Os exames microscópicos se sucediam, mas nada de micróbios, nada de bactérias – nem mesmo um simples cocus. Eijkman injetava em animais escarro e sangue e até fragmentos de tecidos mortos, mas os pobres ratos morriam sem revelar nenhum sintoma de beribéri.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Oscar Liebreich o divulgador da porção do sono

Em 1868, Oscar Liebreich, estava a quatro anos depois de doutorar-se m medicina. Trabalhava em Berlim e procurando aplicar produto químico na cura de doenças. Seu interesse maior estava no tratamento da insônia.
Naquele tempo havia meia dúzia de porções dormitivas de efeito real, das quais três sem perigo; mas não havia nenhuma que fosse ao mesmo tempo efetiva e sem perigo. Os brometos eram muito fracos, e a morfina, o éter, o clorofórmio, a marihuana, o hashish e os outros eram muito perigosos para o uso seguido, sem a constante vigilância do medico.
- O melhor, admitia Liebreich para si mesmo, ainda é malhar na cabeça com u martelo.
Mas devia haver algo melhor que o martelo. Devia haveralguma droga fácil de tomar, algo que cantasse á vitima da insônia uma cantiga de adormecer criança e fosse fácil de tomar e sem perigo. Devia haver, porque não há o que não haja – e, afim de por-se na pisada do calmante, o medico Liebreich voltou a ser o químico Liebreich.
Existia possibilidade numa indicação de Justus von Liebig; misturar álcool e cloro para fazer cloral; tratar o cloral com álcali para fazer clorofórmio. “Espere”, pensou Liebreich. “Cloral mais álcali dá clorofórmio e o clorofórmio faz dormir. E que acontecerá se pusermos algum cloral na corante do sangue para que o álcali do sangue se arrume com ele? Está aqui uma ideia”.
Oscar Liebreich resolveu transformar os vasos sanguíneos em tubos de laboratório. Havia álcali no sangue, sim, mas muito pouco; mesmo assim devia produzir misturado com o cloral, o clorofórmio necessário para adormecer o paciente. A coisa devia dar-se exatamente como no laboratório, apenas com maior morosidade. A formação do clorofórmio sendo assim lenta, de horas, dela viria horas de sono para o insone!
Se Liebreich tivesse no laboratório misturado um pouco de cloral com sangue para ver se dava clorofórmio, teria logo abandonado a ideia como inviável. Essa reação não existe – mas o nosso homem ignorava-o
Em vez de fazer o que era logico e sensato em vez dum teste no laboratório começou logo pelo fim – a experimentar em rãs. Injetava-as com cloral e elas imediatamente adormeciam.
- Admirável! Exatamente como pensei. O cloral vira em clorofórmio lá dentro e as adormece.
Depois que as râs acordaram e se puseram ade novo a saltar, perfeitamente normais. Liebreich abandonou-as e passou aos coelhos. Os resultados foram os mesmos!
Liebreich rodou para as enfermarias dos Hospitais de caridade, depois de obter licença para experimentar lá a sua poção. Primeiro em dementes, sem dúvida, porque se morressem não seria grave a perda.
Numa das camas jazia Herr Stoekel, vitima de epilepsia e melancolia ansiosa. Com medo de que sua cama pegasse fogo, passava acordado dia e noite. Liebreich injetou-lhe no braço vinte gotas de cloral diluídas em água. Três minutos depois o doente começou a bocejar e piscar de sono. “Eu não quero dormir”, dizia ele em sua loucura. “Saiam daqui, por favor, eu não quero dormir...”
Ao cabo de dez minutos seus olhos se fecharam. Ele ainda tentou abri-los. Não pode mais. Caíra em sono tão profundo que nem picadas de alfinetes o acordaram. Dormiu três horas, fez o lanche e caiu de novo no sono.
Três vezes o pobre epilético foi injetado de cloral e nas três vezes afundou no sono que tanto temia e que tanto precisava. Em seguida Liebreich deu uma injeção de cloral numa mulher de meia idade cujo cérebro estava sendo atacado de paralisia, e outra numa linda moça perseguida de horrendas visões.
Ambas dormiram e despertaram aliviadas. Os médicos, então, com o maior entusiasmo, fizeram a experiência do clorofórmio em outros enfermos que igualmente não podiam dormir, ou por causa de uma dor, ou por caua de preocupações – e todos dormiram noites e noites seguidas e assim puderam restabelecer-se.
Mesmo quando outros médicos alemães provaram que já de oito anos vinham usando aquela droga, ele não se incomodou. Fosse como fosse, a Oscar Liebreich devia o mundo a maravilhosa poção que faz dormir.
Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943



domingo, 18 de dezembro de 2016

Explodindo laboratórios Liebig descobriu o clorofórmio

A primeira explosão provocada por Justus von Liebig foi relativamente insignificante. Nem chegou a ser propriamente uma explosão, sim um leve acidente que derramou uma vasilha de tinta no atelier de seu pai, em Darmstad, na Alemanha.
- Justus, repreendeu o velho von Liebig, já disse que não mexesse nas tintas. Por que não fica lá em casa, a estudar nos livros ou a fazer qualquer coisa?
- Papai, respondeu o menino tirando uma pasta de tinta que lhe espirrara nos cabelos, eu não gosto de estudar nos livros , meu prazer é trabalhar aqui. Quero misturar tintas e ajuda-lo.
Justus Von Liebig
Mas o velho pareceu que aquele seu negocio caminharia muito melhor sem a ajuda do filho, de modo que o forçou a cursar o ginásio; queria que ele aprendesse matemática e se tornasse um verdadeiro homem de negócios.
A segunda explosão foi coisa mais forte. Ocorreu por uma tarde do ano 1819 e deu com Julius fora da escola.
- Não sei o que fazer com você, declarou o reitor. Veja o que me fez com essas porcarias de drogas! A paredeestá toda borrada e as janelas sem vidros. Há meses que você vem sendo a peste da escola. Que desgosto não deve dar aos seus pais um menino assim! Que vai ficar quando vier o bigode? Que pretende ser?
- Quimico. Vou ser químico, respondeu Justus.
E o menino foi devolvido a casa paterna. Onde aliás não demorou ,muito tempo; seu pai tinha outras ideias.
- Quimico? Absurdo, rapaz! Vai ser mas é farmacêutico. Vou manda-lo para Heppenheim, como aprendiz.
A terceira explosão veio dez meses depois – e dessa vez foi coisa séria. Arrebentou o teto do sótão da botica, espatifou as vidraças, arrancou dos batentes as portas e jogou com o aprendiz no olho da rua. Novamente pai e filho se defrontaram.
- Justus, disse o velho, que hei de fazer de você Por que não se comporta e não dá um bom aprendiz?
- Mas, papai, eu não quero ser boticário. Quero ser químico.
E foi assim, graças a sua teimosia, que em 1820 Justus Liebig entrou  para a Universidade de Bonn afim de estudar ciências – e as explosões cessaram. A estadia em Bonn mostrou-lhe a impossibilidade de aprender química na Alemanha. “Em 1820”, escrever mais tarde, “o melhor laboratório da Alemanha não valia uma simples cozinha” – e isso o fez tomar o caminho de Paris, atraído por Gay-Lussac, o grande mestre francês.
E foi lá em Paris que certa vez um homem verdadeiramente gigantesco se aproximou dele e começou a fazer perguntas?
- Em que está trabalhando?
- No fulminato de prata.
- E que já descobriu?
Justus contou o que havia feito, polidamente, mas com entusiasmo. O enorme estrangeiro impressionou-se.
- Interessante, sim. Ai há coisa. Não quer jantar comigo domingo? Poderemos conversar mais.
O domingo chegou. Justus vestiu sua melhor roupa, mas no meio da excitação da novidade foi colhido por uma ideia terrível. Que homem era aquele? Qual o seu nome? Onde morava Justus esquecera-se de perguntar-lhe tudo isso...
No dia seguinte, segunda-feira, logo que entrou no laboratório, um dos estudantes aproximou-se.
- Von Liebig, onde se meteu ontem? Por que não foi ao jantar? Todos o esperamos por muito tempo.
- Sabe o que aconteceu? Esqueci perguntar o nome e o endereço do homem.
- esqueceu? Esqueceu?... Não percebeu logo de cara que estava sendo convidado pelo Barão de Humboldt, o maior sábio do mundo?
Liebig tirou o avental rapidamente e voou para a casa do maior sábio do mundo, ao qual deu atrapalhadamente as desculpas que pode. O grande hoeme riu-se a valer, recostado na poltrona. Depois, enxugando as lagrimas do rosto enrugado, perdoou ao jovem químico e fez-lhe outro convite par o domingo próximo.
Quando chegou o tempo de Liebig deixar Paris, Von Humboldt deu-lhe uma preciosa carta de recomendação com que o jovem químico obteve o lugar de professor na velha universidade de Giessen.
Em 1831, uma das experiências de Liebig abriu um campo novo para a medicina; sem que a medicina o percebesse o químico misturou cloro e álcool e obteve uma coisa nova – O cloral. Depois tratando o cloral com um álcali forte, obteve outro líquido a que deu o nome de clorofórmio

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943